Três mineiros universais

Inimá de Paula viveu intensamente os últimos setenta anos de sua vida e do século XX como pintor e foi sempre colocado em lista dos mais consagrados artistas brasileiros. Ao falecer, em 1999, aos 81 anos de idade, deixou legado primoroso de pouco menos de cinco mil quadros a óleo, acrescidos de desenhos e aquarelas a representar a sua origem nas paisagens rurais mineiras, além de percorrer as naturezas mortas, flores e cenas urbanas do Rio, Belo Horizonte e cidades históricas de Minas. Confirmava seu talento nos retratos dos amigos ou de encomenda e nos autorretratos; estes, a representar cada passagem de sua vida, como se estivesse escrevendo sua autobiografia com as cores nos suportes. É acervo que honra o Brasil e Minas, em particular.

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Inimá nasceu em 7 de dezembro de 1918, em Itanhomim, pequena cidade no interior do nosso Estado, mas cedo sua família mudou para Vitória, Espírito Santo, onde o pai, depois da falência de seu negócio de secos e molhados, se tornou fotógrafo, numa época em que a atividade era mistério para poucos iniciados. Foi com ele que Inimá aprendeu a retocar as fotografias dos clientes paternos, algo que lhe deu a desenvoltura para ser retratista a óleo anos depois. Foi também com o pai e com as reproduções de pintura europeias vistas em raros livros em preto e branco, comprados onde e quando era possível encontra-los, que Inimá compreendeu o que é uma composição equilibrada, com ritmo e tensão, e entendeu a importância do número de ouro neste conjunto, algo que, já idoso e lamentando, imaginava superado pela nova geração. Viveu em várias cidades do Brasil, convivendo com colegas de paletas como Antonio Bandeira, Aldemir Martins, Flávio Shiró, Kaminagai e outros. As cidades de fortaleza e Rio foram fundamentais no aprendizado e na consolidação de amizades a durar para sempre, mas Belo Horizonte era onde ele se sentia em casa, cercado por familiares, pelos admiradores, pelos amigos, e amparado pela consagração nacional.

Seu caminho de grande artista é cheio de vicissitudes pessoais e objetivas. Elas começaram na morte do pai em 1935. Foi e é duro golpe para qualquer adolescente ser órfão aos 17 anos de idade, mas, jovem guerreiro da vida, hábil na técnica do desenho, começando a ter intimidade com as cores e autodidata talentoso, percorreu tenazmente o seu desejo de ser pintor. Em pouco tempo era artista. Treze anos depois do falecimento do pai, em 1948, já se havia profissionalizado e percorrido rota tão brilhante, que foi apresentado por Portinari, na sua exposição no Instituto dos Arquitetos do Brasil, no Rio. A garantia oferecida na apresentação era um aval que Portinari daria somente para aqueles em quem percebesse talento e garra pessoais, capazes de expor com brilhantismo, no futuro. Portinari era então, como é até hoje, o mais consagrado artista brasileiro. O embaixador Josias Leão, amigo e admirador do jovem Inimá, o apresentou ao muralista, que imediatamente endossou a opinião do diplomata. Ambos sabiam que mostravam ao Brasil um pintor brilhante e que, aos trinta anos de idade, trazia pintura de quem percorria caminho reservado aos escolhidos de Deus. Brilhantismo que foi merecedor de vários prêmios de pintura ao longo de sua vida, inclusive o de viagem ao exterior vivendo em Paris como aluno de André Lhote.

Leo Christiano Editorial Ltda publicou, em 1987, “Inimá”, o primeiro livro dedicado aos trabalhos do pintor de Itanhomim. É um volume primoroso pela qualidade gráfica, pela seleção de obras representativas de sua trajetória, e uma homenagem que o editor prestava aos então setenta anos de vida do pintor. O texto de Frederico Morais – também mineiro, que desde os anos 1960 vive no Rio, onde exerce jornalismo, curadorias diversas e crítica de arte – enriquece o livro. Além da amizade que os unia, havia em Inimá, e há em Morais, a vantagem de ambos terem conhecido literalmente todo mundo no métier artístico brasileiro do século XX. O privilégio dessa vivência, além do talento de ambos, e os conhecimentos sobre a nossa história da arte garantiram a Inimá a convivência com artistas tão talentosos quanto ele próprio; e a Frederico, o acervo intelectual necessário para escrever não somente o volume editado por Leo Christiano, mas centenas de outros, sobre arte e artista brasileiros. O texto é biográfico, didático e crítico, explicando com clareza por que Inimá foi é importante para Minas e para o Brasil.

Inimá foi paisagista pictórico e é com esse tema que o leitor encontrará o melhor de sua produção. Qualquer cena majestosa, pitoresca, humilde ou devastada se transformava em peça de cores exuberantes de um mestre fauvista que lidava com elas com intimidade de amante. Todo artista tem o raro privilégio de trabalhar naquilo que ama, por isso, a maioria não se cansa de produzir prazer para os espectadores e para si. Inimá trabalhou, produziu, e teve consciência da importância de sua contribuição para o acervo intelectual do país. Mas nunca se arvorou em se chamar de “artista” ou se colocou com arrogância no que fazia. Pelo contrário. Colocava-se em posição de gente comum, atribuindo-se a si mesmo uma importância menor que efetivamente tinha. Apesar de valorizado pessoalmente, durante a maior parte de sua vida, recebeu de seu país menos do que merecia. Artistas como Inimá deveriam ser louvados diariamente. Seu início de carreira, como, de resto, de todos os artistas de sua geração, foi marcado por uma época na qual o Brasil vivia em busca de preencher necessidades vitais e a arte, como se sabe, está no nível de desejo. Chegar a este, nacional ou individualmente, significa ter superado aquele. Para que isso ocorresse, ao longo das décadas do século passado, o país cresceu na sua economia e na vida intelectual, fazendo surgir estratificações sociais capazes de entender a dimensão da arte como investimento no desenvolvimento próprio e dos filhos, apreciá-la a ponto de frequentar museus, galerias e leilões, desejar coleciona-la e chegar a não poder viver ser ela, como se cada peça da pinacoteca pessoal ou institucional fosse uma amante de um harém sem preferida.

Na página 20 do livro “Inimá” há um retrato, de 1937, do artista aos 19 anos de idade. Ele está ao lado de um dos seus trabalhos no cavalete. A cena deveria ser de contentamento pelo êxito de algum evento, mas nela o jovem pintor de paletó e gravata exibe um olhar melancólico e triste. Numa leitura atenta desta primeira foto, ele, jovem demais e vivendo num país onde se valorizavam pouco as coisas do espírito, parece transmitir a tristeza de um saber não sabido, inconsciente, de alguém que sentia a sua alma mergulhada num passado que não compreendia – e o seu futuro como artista definitivo estava longe demais.

Na abertura do primeiro volume das Obras Catalogadas de Inimá de Paula (Fundação Inimá de Paula, 2002), há duas outras fotografias do pintor. Na primeira ele está com o fusain nas mãos e, com certeza, esboçava uma obra. É uma foto em preto e branco e deve ser do final dos anos 1960 ou princípio da década de 1970, período muito produtivo e de alta qualidade do pintor. Nela e naquele momento ele é um homem forte, expõe sua vitalidade para o trabalho e seus poucos cabelos brancos da barba nos fazem imaginá-lo alguém em torno de 55 anos. Seus olhos contêm grande parcela daquele olhar do jovem de dezenove anos, possível retrato de sua alma angustiada por algo interno e que lhe era incompreensível. Na segunda deste volume, a cores, ele aparece com paleta e pincéis nas mãos, informando ao espectador que trabalhava no quadro pintado com suas cores preferidas e visíveis no fundo da imagem. A foto, pela boa impressão gráfica e pelo sentimento nela registrado, é uma espécie de fechamento da biografia pictórica do artista fauvista. Ela foi clicada um ano antes de sua morte.

Entre as três fotos, há evidentes diferenças físicas, não apenas pela objetividade da vida, mas pela doença que, nos últimos anos, o havia marcado. Nesta última, a sua barba é toda branca e os cabelos são ralos, apresentando acentuada calvície. O leitor interessado e atento perceberá que nas três há um denominador comum: o olhar de sempre do jovem que desde cedo fez perguntas sobre tormentos internos – e que estavam externadas no seu jeito taciturno, retraído e tímido. As perguntas – nunca respondidas, mas sempre demonstradoras de sua angústia – produziram reação formativa na sua bela produção e na essência do seu inesgotável talento. Vistas hoje, suas obras com cores vivas e a sua própria biografia estavam perto demais dele mesmo para que ele entendesse que as respostas estavam nos seus próprios trabalhos. É possível que todos nós tenhamos perguntas semelhantes no nosso inconsciente, essa “caixa-preta” que credita e debita os nossos desejos, ao longo da vida. É dentro desse postulado freudiano que encontramos ambas, perguntas e respostas, e é inútil procurarmos fora. Para que Inimá formulasse para si a pergunta contida do seu olhar e de tal forma que ele recebesse a resposta, seria preciso que o pintor tomasse certa distância emocional do que vivia e sentia. Não conseguiu. Sorte dele, maior ainda aquela do Brasil. Dessa forma o brilhante artista mineiro viveu a sua produtiva perplexidade. Talvez seja semelhante àquela que muitos de nós temos, mas, sem talento, não embalamos nela nossa produção profissional e não a expomos nem mesmo para implacáveis câmeras fotográficas.

Para parte de seus amigos e dos muito admiradores que o conheceram pessoalmente, essas reflexões podem soar como invenção literária. Não são. Em suas pinturas sempre houve uma contradição entre a alegria de suas telas e a tristeza de seus olhos. A sua exposição de 1968, na Galeria Guignard, em Belo Horizonte, então dirigida por Sálvio de Oliveira é, até o momento do nascimento deste texto, uma das mais belas exposições brasileiras e foi a mais provável resposta à pergunta que ficava dentro de sua alma de mineiro talentoso, pelo primoroso desenho, pela força das cores aplicadas aos suportes e pela capacidade de transformar qualquer paisagem, flores, frutas, cenas marítimas, figuras humanas ou abstratos em obras que, num relance, nos aprisionam, levando-nos da admiração ao desejo de possuí-las e as vermos diariamente, como se fossem amados integrantes da família.

Toda essa descrição de sua arte o leitor poderá comprovar no livro editado por Leo Christiano, em 1987, e nos dois volumes editados em 2002 e 2006 pela Fundação Inimá de Paula, sediada em Belo Horizonte, contendo suas obras ali registradas por colecionadores particulares e instituições públicas. Os livros da Fundação devem ser consultados sempre que se quiser obter imagens de um pintor mineiro que, pelo talento, se tornou universal, transformando suportes e cores em objetos de desejo e arte. Os volumes contêm centenas de reproduções de boa qualidade, distribuídas de acordo com cada temas. Se, num exercício imaginário, suas obras desaparecessem e ficassem somente os três volumes, eles garantiriam a imortalidade do artista. Essas edições são fundamentais para a compreensão de trajetória de Inimá, uma vez que sua produção está dispersa em coleções particulares e museus, pelo Brasil afora. Serão úteis também para pesquisas do conjunto no futuro, ou referências para seleção de suas obras e exposições posteriores. Mas os volumes da Fundação, para serem consultados, precisam ser deitados sobre uma mesa. São difíceis de manusear, pelo tamanho e peso, e pecam pela ausência de um artista gráfico digno de Inimá, que distribuísse as reproduções sem monotonia e diminuísse a grave perda de espaço em cada página. O primeiro dele contém texto de autoria de José Roberto Teixeira Leite, crítico de arte e ensaísta, que expõe com clareza aspectos da pintura de Inimá de Paula.

Esses três volumes são refeências para que deseja conhecer o trabalho de Inimá de Paula, pintor e artista brasileiro, nascido em Minas Gerais.

Guignard

Como se sabe, o modernismo nasceu para influências pictóricas de exposições de Lasar Segall e Anita Malfatti, realizadas em 1917. A idéia da Semana da Arte de 1922 foi de Di Cavalcanti, apoiada por intelectuais paulistas interessados na revitalização do Brasil agrícola. Mas a importância desse acontecimento só repercutiu pelo Brasil afora um ano depois, quando o embaixador Graça Aranha, em agressivo discurso na Academia Brasileira de Letras, mostrou o seu horror ao tanto que o país negava ou ignorava o movimento intelectual mais importante do século XX. Seu discurso repercutiu mais que o movimento de São Paulo. Apesar da insistência de Aranha, o modernismo somente seria aceito no Rio de Janeiro, capital intelectual do país de então, no início dos anos 1950, coo informa Antonio Bento. Se o modernismo foi de difícil aceitação, o abstracionismo, irmão caçula daquele, foi ainda pior. O abstracionismo brasileiro ocorreu somente em 1953, no Hotel Quitandinha, em Petrópolis.

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A primeira exposição modernista de Minas realizou-se catorze anos depois da famosa semana – em 1936, no subsolo do antigo Cinema Brasil, em plena Praça Sete, em Belo Horizonte. Como toda novidade, foi mal recebida. Mas em 1944 um médico mineiro, nascido em Diamantina, chamado Juscelino Kubtscheck se tornou prefeito da Capital mineira, por indicação de Benedito Valadares, interventor no nosso Estado, representante máximo de Getúlio Vargas, ditador então. JK era um homem aberto às novas idéias e foi cercado de jovens que lhe apresentaram alguns artistas que marcariam a sua vida político e de homem público e o tornariam eternamente associado ao modernismo brasileiro. Oscar Niemeyer trouxe as linhas arquitetônicas cheias de curvas herdadas do barroco mineiro, Ceschiatti e José Pedrosa contribuíram com as esculturas, Athos Bulcão com os azulejos, e Candido Portinari com os murais. Esse grupo de artista criou o conjunto arquitetônico da Pampulha, a ratificar o modernismo e revolucionar a construção em concreto, com suas inacreditáveis linhas.

Com todas as vantagens desse grupo, JK sabia que findos os trabalhos, todos voltariam para o Rio. Nosso prefeito de então estava interessada em artista que aqui ficasse, criasse escola e desse à cidade dimensão de importância nacional e continuasse a revolução das artes plásticas iniciadas por aquele grupo. Pensando assim, JK trouxe do Rio de Janeiro Alberto da Veiga Guignard, um brilhante e consagrado pintor cuja formação europeia desde criança garantia o conhecimento do que ocorria no Velho Mundo. JK trouxe não somente os modernistas e Guignard para nosso Estado, mas a idéia de desenvolvimento do interior do país, até então vivendo apenas do litoral. É incrível, mas, emoldurando-nos no tempo, nota-se que o Brasil dos anos 1940 existia a partir de Recife, passava por Salvador, Rio, São Paulo e chegava aos pampas, em Porto Alegre. O interior era quase vazio. JK veio para mudar tudo isso.

E Alberto da Veiga Guignard veio para mudar a idéia acadêmica e conservadora da pintura que se fazia em Minas. Ele Nasceu em 1896 em Nova Friburgo, Rio de Janeiro, mas não há um único mineiro que considere fluminense. Minas Gerais está eternamente associada a sua vida e obra, fazendo crer que nascer lá foi um acidente geográfico, assertiva com a qual o pintor, por certo, concordaria, tão grande era sua paixão pela nossa terra.

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Guignard teve vida trágica, iniciada no nascimento com lábio leporino e todas as consequências físicas e emocionais desse defeito. A tragédia continuou no suicídio do pai, quando ele era criança, acrescido de novo casamento da mãe com certo nobre alemão, sempre lembrado pelo enteado como alguém perdulário e explorador. A família foi morar em Munique, Alemanha, e lá nosso herói recebeu esmerada educação artística, sobretudo da técnica do desenho e da pintura. Tornou-se um artista importante pelo talento e beleza de seus trabalhos. Adulto, voltou ao Brasil em 1929 e se admirou com a ausência das escolas europeias – do cubismo ao surrealismo – na pintura que era feita no Rio de Janeiro de então. Dos pintores presentes na Capital Federal daqueles anos, Guignard via apenas nas obras de Ismael Nery as qualidades da pintura que consagraria o século XX.

Cheio de entusiasmo pela nova pintura e desejoso de transformar a jovem e provinciana capital da qual era prefeito, JK convida o artista para fundar e dirigir uma escola de arte em Belo Horizonte. A visita de Guignard às cidades históricas mineiras, em especial Ouro Preto, o torna mineiro para sempre. Vila Rica foi especial, pelo que preserva do século XVIII, um museu a céu aberto, onde cada pedra nas íngremes ruas ou cada armário de suas velhas casas têm algum segredo bem guardado e qualquer inconfidência será objeto de avaliação histórica. Foi especial ainda pela luz que ilumina a cidade de forma tão suave, como se as montanhas tivessem sido postas em locais calculados por Deus, com a finalidade de ser um rebatedor da luz celestial. Este cenário, as cidades e Mariana, Sabará, o balneário de Lagoa Santa e a Serra do Curral, no esplendor de sua virgindade, deixaram o artista apaixonado por Minas. Sua carreira se consagraria pintando essas paisagens e sua gente.

O leitor encontrará muitos textos sobre a vida e a obra de Guignard e é possível que sinta em todos eles a ausência de dados biográficos mais detalhados. Por certo, não é responsabilidade dos autores. A vida do pintor foi marcada pelas tragédias descritas acima, outras jamais contadas em livros ou textos, e pela falta de informações registradas em documentos ou depoimentos dele ou de amigos europeus que, provavelmente, morreram sem saber da sua importância no Brasil. Poucos mortais se imaginam imortais e, por isso, não deixam registros, dificultando a vida dos seus biógrafos, quando aqueles se projetam para a posteridade. Quando Guignard chega a Belo Horizonte, o mestre era artista consagrado no Brasil e havia, inclusive, vendido um quadro para o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. A compra do quadro, além do reconhecimento implícito, era e é um privilégio para qualquer pintor. Aqui chegando, construiu não somente uma escola no sentido literal, mas outras, metafóricas. Parte de seus alunos vive e viveu o suficiente para depor sobre o mestre – dados, passagens biográficas e vivências compartilhadas com o professor altruísta, o que o consagraria ainda mais.

O livro mais importante sobre Guignard A Escola Guignard na Cultura Modernista de Minas 1944-1962, foi editado em 1988 pela CESA-Cia. Empreendimentos Sabará, com incentivos fiscais da então Lei Sarney. O grupo empresarial foi generoso com o artista e com Ivone Luiza Vieira, sua autora. Ivone é mineira, estudiosa da nossa cultura e de nossas cidades históricas. É um livro literalmente lindo, que o mestre aplaudiria, bem escrito, revelador da biografia do pintor, e traz a vantagem de apresentar algumas reproduções de trabalhos de ex-alunos do artista, ajudando o leitor a compreender a influência do mestre nas obras deles. Sua beleza começa pela capa dura e sobrecapa, reproduzindo detalhe de um girassol, pinçado de um dos seus óleos sobre madeira, “Vaso de Flores”, célebre e valorizado tema do artista, pertencente a colecionador de São Paulo. A diagramação, de Dan Fialdini, é digna do biografado. As propositais reproduções de alguns quadros, impressas em meia página, garantem a leveza do volume. O leitor perceberá o caminho de Guignard, que, das obras surrealistas dos anos 1930, passou aos poemas pictóricos das cidades históricas, após sua chegada a Minas. Notará diferença na linha do horizonte de seus quadros, em épocas diferentes. Em alguns o céu (e que céu!) tem o predomínio de mais de dois terços do suporte, ficando a paisagem restrita ao restante. Neste particular, Guignard antecedeu a Gabriel Figueroa, célebre fotógrafo de westerns americanos que, filmando, deixava na tela o mesmo registro de espaço guignardiano par ao céu e a paisagem. Em outras obras não há linha do horizonte, apenas as Paisagens Imaginárias, como as chamou Lélia Coelho Frota. São cenas de rara beleza e vistas em qualquer manhã de inverno na Ouro Preto de hoje, quando a neblina entrelaça a cidade, impedindo o espectador de vê-la por inteiro e, por isso, se vêem as suas casas, igrejas e serrania flutuando em diferentes camadas transparentes. A pintura de cenas como essa é transposição da magia do acontecimento na cidade. Em outro texto sobre o velho pintor, assegurei que “essas paisagens imaginárias ainda estão lá como adolescente apaixonada, aguardando a volta do poeta que as imortalizou”. O registro pictórico delas foi possível pela beleza de sua transparência, feita com técnica apuradíssima e temperada com amor sobre a cidade que o amava e o consagrou. Essa técnica foi um de seus belos legados para alunos que ainda fazem uso dela: Yara Tupinambá, Maria Helena Andrés, Sara Ávila e Chanina.

Se não se conhece pelo menos parte da biografia de Guignard, o leitor se surpreenderá em saber que artistas consagrados – e tão distantes do conteúdo e forma do que o mestre fazia – estão na sua lista de ex-alunos: Farnese, Amílcar de Castro, Mary Vieira, Maria Helena Andrés, Mário Silésio, Solange Botelho, Sara Ávila, Chanina, Álvaro Apocalypse, Heitor Coutinho, Yone Fonseca, Wilde Lacerda, Lisete Meinberg, Gavino Mudado e muita gente mais. Alguns ficaram conhecidos pelo desenvolvimento do talento pessoal e beleza de seus trabalhos, influenciados ou não pelo velho professor. Em quase todos ficou o registro de gratidão ao mestre e a certeza de que fazer parte do diário de classe dele é motivo de inveja entre os que não fizeram.

Mas Guignard não é pintor apenas de belas paisagens e professor generoso. Seu acervo pictórico vai desse tema, passa pela natureza morta, temas religiosos, incluindo célebre via sacra em capela do Rio, dezenas d óleos e desenhos de Cristo, e chega naquilo que ele chamou “da arte mais difícil”: o retrato. Neles, Guignard deixava registrado o caráter do criador e criatura, sabedor de que uma paisagem diz muita coisa, assim como qualquer natureza morta, mas somente o retrato diz tudo do artista e do retratado. Seus autorretratos são exemplos da realista percepção de si próprio, mesmo quando tenta se proteger do defeito congênito com um vasto bigode branco. Como o seu belo autorretrato de 1961, reproduzido na página onze do livro de Ivone e pertencente ao acervo do Museu de Arte da Pampulha (MAP), composição embelezada por sinfonia de cores ao fundo. Ele próprio, o autorretrato e todas as cores nos dão o recado do tanto que o mestre sabia de si e delas. E a percepção de detalhes, em qualquer tema, o leitor constatará no livro de Ivone Vieira. Ainda que não se tenha oportunidade de conhecer os originais do artista fluminense (e mineiro de escolha), poderá ser percebido, nas reproduções deste livro, o requinte no fundo de cada figura religiosa ou de certos retratos de amigos queridos. Guignard enriquece suas composições também com folhagens, flores, balões de festa de São João ou paisagens surrealistas, na certeza de compor um quadro importante nos detalhes, fazendo, do todo, obra imortal.

As reproduções no livro são em números suficiente para o leitor perceber a grandeza do mestre e tem qualidade gráfica para o leitor sentir a textura das cores, como se o original estivesse à sua frente. Mas não se deixe enganar pelas reproduções do requintado livro: os originais são insuperáveis e causam rara emoção no espectador sensível e interessado nas coisas criadas por artistas imortais.

Carlos Bracher

Carlos Bracher é um dos poucos artistas de sua geração que não foi aluno de Guignard nem o conheceu pessoalmente. De comum entre os dois há uma mesma paixão pela Vila Rica de sempre, cidade onde Bracher foi para morar dois anos e está há trinta e cinco. Filho de família presbiteriana interessada nas coisas do espírito, Bracher nasceu em 1940, em Juiz de Fora. Seu pai era querido professor de química e figura huma ímpar na Manchester mineira, e vida artística na família não é privilégio do filho ilustre.

Para compreender a sua biografia, o primeiro passo é a leitura de dois livros sobre o pintor. Comece pelo Bracher, editado em 1989 pela Métron, com textos de Moacyr Laterza, Ferreira Gullar e Olívio Tavares de Araújo, acrescido de poemas de Affonso Romano de Sant’Anna e Haroldo de Campos. Mas não os leia na ordem em que foram editados. Comece pelo afetivo texto de Olívio Tavares, crítico e autor de vários livros sobre a arte e artistas brasileiros. Olívio, cujo pai foi amigo do avô de Carlos Bracher, tem a sorte de ser seu amigo de infância, desde que foi colega de grupo escolar da irmã de Bracher. Em cidades do interior de Minas, como a Juiz de Fora dos dois amigos, assim com a Belo Horizonte dos anos 1950, a intimidade com todos nos fazia sentir como se tivéssemos relação de parentesco com o vizinho de anos. Olívio e Bracher são irmãos de escolha e o fraterno e afetivo texto comprova a assertiva. Pela descrição e sinceridade do autor, o leitor descobrirá que Carlos nasceu para brilhar desde o dia em que seu pai, que afirmava viver em planos cósmico e terreno, previu promissor futuro para o filho. Carlos, cuidadoso com o pai, cumpriu o desejo dele, se tornando quem é: um dos mais importantes e brilhantes pintores de Minas e, como tantos mineiros, universal.

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Agora que o leitor foi apresentado a parte da família, folheou o belo volume contendo reproduções que começam na sua madura produção dos vinte e um anos de idade, parte dela nos lembrando e nos remetendo ao futurismo de Marinelli com sua paixão pelos movimentos, presente nos quadros de 1961 – Chegada à estação e Locomotiva em Movimento – está pronto para ler o didático texto de Ferreira Gullar sobre a luz e sua influência na obra de Carlos Bracher. Depois, leia o cerebral Moacy Laterza falando sobre as mãos e do que elas são capazes de produzir quando são de gente talentosa. Leia em seguida o belo poema de Affonso Romano de Sant’Anna, outro amigo da juventude na velha Manchester mineira, que, escrito em 1979, expões a sua emoção após ver o seu retrato pintado. Quem conhece o poeta pessoalmente, sabe que ele e o seu retrato pintado por Bracher convivem como se Dorian Gray juntos: Affonso Romano pessoalmente hoje é o mesmo do retrato de então. Nenhum envelheceu.

Percorra as páginas desse livro para conhecer outra versão de Vila Rica, tão bonita quanto a de Guignard, mas com alterações significativas, no conteúdo e na forma, da velha cidade. São dois olhares diferentes para temas afetuosos, como só os amantes de cidades são capazes. O leitor perceberá ainda que Bracher é também colhedor de flores e frutas que, misturadas com violinos em caixas abertas, transpostas para o suporte, registram bela passagem do pintor e artista de nosso tempo fazendo a sua “pintura de sempre”, como a denominou Olívio. Pintura de sempre quer dizer o belo figurativo, identificado de longe como obra do autor, mas já beirando a abstração em certas passagens. Bracher é grande figura humana, de convívio fácil entre amigos e não se acanha em pintar em público. Sorte de quem já teve oportunidade de vê-lo pintar, verdadeira aula para quem se interessa pela técnica pictórica e pura perplexidade para o invejoso sem talento. Ele começa sempre por um concerto que deve ser ouvido alto. Mahler é perfeito. Afinal, a palavra maler, sem “h”, mas com a mesma pronúncia na língua de Goethe quer dizer “pintor”. Suporte no cavalete, fusain nas mãos, modelo ou composição na frente, é hora de o maestro dar o sinal de começar um outro concerto. Pictórico. Em poucos minutos, o objeto está esboçado no suporte e, a partir daí, é uma sucessão de movimentos que o fazem aparecer e desaparecer no suporte. A cada momento, a obra cresce de qualidade e fica pronta em menos de uma hora. Cinquenta anos de pintura diária é o tempo necessário para fazer bela obra em cinquenta minutos.

O segundo volume de importância sobre Carlos Bracher é Homenagem a Van Gogh, e foi editado em 1994,com o patrocínio de um pool de galerias brasileiras. A edição coincidiu com a exposição, em várias capitais brasileiras, do conjunto de cem obras pintadas por Bracher nos mesmos locais e, com frequência, com os mesmos temas executados por Vicent, numa homenagem ao gênio holandês. É uma série especial no acerto pictórico de Bracher, porque foi pensada, projetada e pintada durante, literalmente, uma vida. Bracher afirma que, muito antes de sua primeira exposição, pensou em fazer a série que se encontra editada. Amadureceu a idéia durante anos. As pinturas de Van Gogh são a grande paixão da vida de Bracher, o que fica evidente em sua Homenagem a Van Gogh, quando o pintor mineiro registra e redescobre aquelas mesmas paisagens. Como o conjunto se dispersou, com a venda das peças para diferentes colecionadores, o belo volume traz a vantagem da série completa dos quadros. As cidades de Saint-Rémy e Auvers-sur-Oise, com seus boulevards e seus trigais, a região de Les Baux de Provence, com suas paisagens multicoloridas, tudo registrado antes por Van Gogh, voltaram a ser objeto de estudo e de beleza, nas mãos do juiz-forano tornado universal. Todo curador sabe que, passada a exposição, o que fica como registro dela são as lembranças dos espectadores e o seu catálogo. Portanto, nada mais apropriado que imprimir um livro da exposição construída com veneração ao velho colega de paleta.

------------- Referências
BRACHER, Carlos. Bracher. São Paulo: Métron, 1989. 176 p.
BRACHER, Carlos. Homenagem a Van Gogh. São Paulo: Empresa das Artes, 1991. 126 p.
FADEL, Sérgio. Arte moderna no Brasil: o olhar do colecionador. Rio de Janeiro: Edições Fadel, 2006. 302 p.
FUNDAÇÃO INIMÁ DE PAULA. Inimá: Obras catalogadas. Belo Horizonte: Fundação Inimá de Paula, c2002-2006. 2 v.
GUIGNARD, Alberto da Veiga. Alberto da Veiga Guignard, 1896-1962. São Paulo: Pinakotheke, 2005. 204 p.
MORAIS, Frederico. Inimá. Rio de Janeiro: Leo Christiano Editorial, 1987. 117 p.
PERKTOLD, Carlos. Ensaios de pintura e de psicanálise. Belo Horizonte: Internacional, 2003. 167 p.
VIEIRA, Ivone Luzia. Escola Guignard na cultura modernista de Minas, 1944-1963. Pedro Leopoldo: CESA, 1988. 164 p.
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*As referências foram normalizadas pela equipe da Biblioteca Pública Estadual Luiz de Bessa, a partir das informações presentes no texto.


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