Entrevista de Iracy Carise para a Universidade da Africa do Sul - UNISA

  Carioca, a escultora Iracy Carise vive no mundo mágico da arte negra:

 "A´programação da cultura negra e seus valores culturais é a reparação de uma injustiça social que se impôs àqueles povos que tanto contribuiram para a grandeza e formação da nacionalidade brasileira." (Iracy Carise)

 REPORTER: Iracy Carise, você que tão pertinazmente tem se lançado à pesquisa de temas afro-brasileiros, por que motivo se situou estéticamente na figura do negro?

 IRACY: O motivo é histórico: 1) pela notável contribuição à cultura brasileira; o negro é uma figura essencialmente plástica, a raça negra, esteticamente, é uma das mais belas do mundo; a arte negra, livre de preconceitos e convenções pré-estabelecidas, influenciou todas as manifestações da arte moderna.

 REPORTER: De que forma se iniciou este caminho?

 IRACY: Depois de formação na escola Técnica Nacional, a natureza vista através da esfera, do cone do cilindro, inspirada na cubificação da arte negra, predominou no meu trabalho; porém, faltava conteúdo, linguagem, motivação. Estudando nossas origens, voltei minha atenção para o índio; mas, pobres de tradições e arredíos à escravidão, pouco acrescentaram à nossa cultura. Os africanos, muito ao contrário, habituados a este sistema e também mais dóceis, influenciaram nossos costumes e tradições. Enveredei, então, pelo estudo de etnías negras, elaborando uma série de máscaras-iconografia das culturas especificamente ligadas ao nosso braço escravo e esculturas tradicionais africanas destinadas a exposições didáticas, reunindo as anotações em monografias e um livro abordando a influência da cultura africana no Brasil.

Na escola Técnica Nacional, descobri um processo de altas temperaturas pelo qual se obtinha a carbonização das peças - uma espécie de negro de fumo que se assemelhava ao ébano. Daí para a elaboração de máscaras e adpatação desse tipo de técnica foi um passo; a coleção de máscaras focalizava as tribos escravas do Brasil, especialmente bantos e nagôs, algumas delas destinadas à ilustração do livro Arte Negra na Cultura Brasileira. Um trabalho de laboratório...

 REPORTER: E foi difícil obter documentação?

 IRACY: Enfrentei imensas dificuldades para obtenção do material iconográfico, informações, subsídios. Percorri Bibliotecas e Museus, no Brasil e estrangeiro. Foi um estudo paciente e perseverante, mas entrei num mundo maravilhoso de deslumbramento, de descobertas, de magía e de beleza, de lendas, mitos, histórias, atos de heroismo valentia e desprendimento e, sobretudo, de altruismo do negro , ao lutar em movimentos cívicos, ao lado do branco, "por um governo de igualdade". Realizei exposições em museus e entidades culturais, apresentando réplicasde cabeças de Obás e baixos-relevos, peças de raro valor antropológico e etnográfico, com sentido didático, procurando estabelecer o relacionamento arte-histórica e, também, propagar a arte negra e sua influência na arte moderna. (Curioso é que, na época, certo crítico de arte declarou que ?

não teriam interesse; entretanto, tempos depois, teceu elogios a Vera Pacheco Jordão, a quem muito admiro, que teve iniciativa semelhante, ou seja, exposições de réplicas de obras de arte mais famosas do mundo). Portanto, mantive dois tipos de peças: aquelas destinadas a ilustra a pesquisa (réplicas de antigos e famosos bronzes do Benin) e trabalho de criação propriamente dito, inspirado em temas afro-brasileiro, na busca deliberada e criativa dos volumes e da forma.

 REPORTER: È verdade que você escreveu um livro no qual afirma que "negro é lindo"?

 IRACY: Como componete de um grupo étnico, o negro é um dos mais belos tipos da raça humana. Formas estéticamente coincidentes e perfeitas, vozes belíssimas, dentes branquíssimos e bem feitos, sensibilidade e muita resignação, fazendo do negro uma figura essencialmente plastica e uma das mais belas raças do mundo. Mass, naquela época, enfreitei algumas barreiras. Modelando orixás, as pessoas indagavam: "isto é uma heresia; você não tem medo?" Outras, achavam que eu queria ser "original". Mas, na realidade, sempre admire a figura do negro e hoje, felizmente, intelectuais e artistas concientizam-se do assunto e só se fala na cultura negra. Surgem iniciativas, novas instituições e movimentos culturais. Na França, onde residi algum tempo, é impressionante o interesse em torno do tema. Há inúmeros debates, encontros, festivais sobre a cultura negra. Num deles cheguei a debater a influência africana no Brasil. E em Londres assisti a ravant-presuiere "do I Festival Mundial das Artes Negras.

 REPORTER: O que você poderia nos dizer sobre o sentido da arte negra?

 IRACY: Hoje, o conceito de arte é criação. E a arte negra não copia a natureza nem se miscigenou a influências e técnicas estranhas. E é justamente nisto que consiste seu valor. Famosos etnólogos como Willian Fagg, p. ex., entendem que a arte africana é tão universal quanto a arte grega - e chegaram a esta conclusão por sua expontaneidade criativa. É injusto e até incompreensível sentido pejorativo de "arte primitiva" aos povos sem cultura o de civilazações precárias, isenta de uma orgânica estética, pobre de canons pré-estabelecidos etc - porque a arte na África não tem somente um carater estético; ela é, antes de tudo, uma atividade criadora que gira em torno de crenças e forças subjetivas. O artista africano, diversamente do artista ocidental que trabalha para uma "platéia" - não se importa, em absoluto, como a reação do público ao seu trabalho e dá a cada elemento estético uma significação muito particular. Há uma interpretação de Einstein que está intimamente ligada ao seu interesse pelo cubismo; o artista exprime uma idéia, um símbolo, não reproduz simplesmente as aparências visíveis da natureza, mas sim as coisas interiores, sibjetivas, procurando mais captar uma realidade pensada do que vista.É a criação autêntica pela integral liberdade da forma, conceito que revolucionou a arte moderna, abrindo caminho a grandes conquistas, como os impressionistas que buscavam interpretar as coisas não são "mas como são vistas". Conheci em Paris os maiores colecionadores de arte negra do mundo, possuidores, inclusive, de museus particulares, com sofisticadíssimas engrenagens de segurança. E há mais de duzentos galerias específicas. É que eles admiram a arte livre de artifícios, plena de espontaneidade e expressão, simplicidade técnica e, principalmente, singeleza, que os críticos hoje chamam de síntese - a eliminação do inútil - caracteristicas de criação pura.

 Portanto, a arte negra foi a fonte inesgotável de tendências para aqueles que trouxeram inovações quando ela já estava presente, jorrando idéias,, sugestões, temas para inúmeros movimentos culturais e artísticos; as "novidades" que sacudiram o mundo da arte moderna eram tradições seculares na velha África. A tese, pioneira, defendi-a em meu livro. Minhas observações comprovara o quanto a arte moderna absorver da arte africana, não somente cubismo de Braque e Picasso, mas em todas as demais manifestações pos-impressionistas. E aqui vale registrar fatos interessantíssimos que contastei no México e que provam a força e influência exercidas pelas artes distas "primitivas" umas sobre as outras e sobre a arte do futuro: o livro Cuarenta Siglos de Pintura Mexicana reproduz uma figura antiga representada de frente e de perfil exatamente igual à famosa pintura cubista de Picasso, assim com estatuetas akuabas dos ashantis verdadeiras réplicas das peças maias de terracota; figurinhas longas, braços atrofiados, extremamente sintetisadas, a intuição artística que iria prevalecer nas regras estéticas da síntese na arte do século XX.

 REPORTER: Qual o relacionamento da arte negra e arte moderna?

 IRACY: Eu não diria propriamente relacionamento, mas sim influência. Dois fatores primordiais motivaram a atenção dos críticos e estudiosos e a importância que adquiriu a arte negra quando os impressionistas buscavam novos conceitos estéticos ou os expressionistas que, concientemente, exageram e simplificam formas e volumes, buscando a de formação emocional como meio de expressão. Importantíssimo foi o papel que desempenhou no começo do séc. XX, a analogia entre certas esculturas africanas e o cubismo, processo que secciona, angulariza e torna translúcidos os diversos angulos de um mesmo objeto, querendo sugerir, com a introdução de várias perspectivas, a teoria de Einstein, em que o tempo é, matematicamente, encarado como a 4a. dimensão. Outros dois fatores importantes para o nascimento da arte cubista foram a influência de Cézanne sobre Braque e o contrato de Picasso com a escultura negra. O sentido de construção formal comum à pintura de Cézanne e às imagens da arte negra forneceu a Braque e Picasso os elementos ideiais para reagir ao que eles chamavam de "linguagem impressionista." Braque, de logo, descobriu a força renovadora desta pintura e iniciou as primeiras paisagens em "cubos"; Picasso, por sua vez, começou a "ebificar" os os objetos como as formas cortadas a machado da escultura negra. Tenho afirmado em diversas palestras que a arte negra não influenciou movimento impressionista, a arte negra influenciou e está presente em quase todas as manifestações da arte moderna, como, por exemplo, na cópia descritiva do Naturalismo; na deformação emocional do Expressionismo; na liberdade da forma e decomposição; geométrica do Cubismo; no ponto e contraponto do Concretismo; nos temas paradoxais e na irrealidade do Surrealismo; nas pinturas rupestres do sudoeste africano: Primitivo e Futurismo; no Abstracionismo também e, ainda, nos movimentos de vanguarda a arte negra se faz presente: nos Múltiplos (motivo "adinkira" dos ashantis); na Pop-Art, Op-Arte e até na Bauhaus a arte negra está, espantosa e intimamente ligada - tese pioneira que defendo em meu livro.E incluiria também o "esculto-injerto" a nova tendência da arte da rejeição e do grotesco - que vi no Museu Espanhol de Arte Comtemporânea e no Centro de Arte Contemporanea George Pompidou, e Paris.

 REPORTER: Você já realizou muitos desfiles de benemerencia. Fale-nos de sua atividade no campo da moda.

 IRACY: Nos tecidos pintados à mão - linha afro-brasileira - minhas criações para famosos costureiros e para a Sociedade Brasileira de Alta Costura, além de algumas fábriacas texteis, percorreram diversos países, soblo patrocínios do Itamaraty. Em Nova York os empresários compravam lá sem saber que eram de brasileira... Promovi desfiles de trajes e adereços de minha criação, alguns deles com o costureiro Armando, em favor de instituições filantrópicas e do Governo do Estado, incluindo a feira da Providencia, o Bazar dos Estados (pernambuco e Alagoas), FENITS, Lions e Rotarys Clubes, Museu de Arte Moderna, "Nosso Grupo", empresa de promoção etc Inspirada no folclore e temas africanos, apenas exigiu que os manequins fossem negros. Foi um sucesso e hoje é moda. O Paulo Vicente tem contrato de exclusividade com Courreges, foi eleito Manequim do Ano em Paris, figurou em capa e em revistas de moda em toda Europa, com minha estamparia (impress na Tecosa) e faz delirar platéias com as mais famosas etiqueta A Pinahm lancei-a no Museu de Arte Moderna, nos desfiles pomovidos pela alta costura francesa, nos quais apresentamos a linha afro-brasileira e hoje também é sucesso em Paris. (os franceses a chamam de "a mais bem despida brasileira"). Maria Rosa, Yuruá Luana, Tarone, Sumara, Anika, Marrie Claud, Vick e Elke Maravilha - e muitas personalidades da sociedade brasileira - "curitram " os meus trajes africanos. A esposa de um certo governador recusou-se a adquirir um longo que criei para Marina Massari, Presidente da SBAC, porque eu havia dado o original à manequim. Mas não resistiu e acabou encomendado um igual. A verde é que o negro aí está no teatro, na música, nos movimentos artísticos e culturais, numa atuação marcante. Creio que alertei muita gente, apesar de me manter no anonimato; infelizmente, minha luta parece não ter sido em vão...

 REPORTER: Você se sente realizada?

 IRACY: Bom, isto vai depender do que você entenda o que é realização, porque ela varia na medida em que você é mais ou é menos ambicioso. Reduzindo erm números, 76 prêmios, duzentos trabalhos em coleções públicas e particulares, outros tantos de ilustração, inúmeros cursos no Brasil e no estrangeiro, 32 apresentações individuais, membro da diretoria e academica de academias de letras e artes, comendas, homenagens, moções, cursos de extensão cultural e pesquisa qual reune farto material iconografico destinado a individuais e exposições didáticas monografias, colaboração em jornais e revistas, palestras e desfiles de benemerência, além da atividade normal do atelier - escultura, pintura, gravura, litografia, tapeçaria, desenho, enfim - cursos, exposições, ilustrações, artigos, moda deixam-me realizada à pretensão de propagar a cultura negro-africana em meu país. Quanto ao trabalho em si - a fase atual resultante dos estágios do Prêmio de viagem ao exterior (México, França, EE.UU.) propiciou uma grande abertura - este me faz profundamente realizada. Trouxe farto material para o trabalho futuro; estabeleci contato com diversas entidades e artistas estrangeiros. Graças à Embaixada do Brasil e por força do prêmio oficial pude utilizar as malas diplomáticas para a remessa do material didático destinado à feitura de relatórios e observações. E acabo de editar, sob os aupícios da Funarte, "Análises e Reflexões" - depoimento sobre a atividade de diferentes fases e épocas, processos de desenvolvimento e o relacionamentos com a arte negra, reflexões sobre a expressão artística e os caminhos percorridos até a fase atual além de documentação e dados sobre opções para o artista brasileiro, horários e informações de grande interesse, como o panorama artístico etc.

 A exposição abrange as fases "propasições", "contruções programadas", "evolução/transformação/síntese" inspiradas na teoria de lamark; tem o patrocínio de Presidente do Senegal, Leopold Sedar Senghor, denomina-se "Regardez 1´Afrique' e é um manifesto que não tem apenas um sentido cultural mas é, também, uma homenagem à Africa negra, suas lutas e justas reivindicações, do relacionamento da forma suas analogias e correlações, porque, afinal, são integrantes da minha imagem do negro na arte ocidental" com a linguagem artística de que não é propriamente a forma o que me interessa e sim o que ela possa conter.

 Frenquentei a Escola Superior de Belas Artes e a Academia La Grande Chaumiére, além das universidades autonomas do México, a Escola da Belas Artes La Esmeralda, a Real Academia San Fernando e a Escola de Belas Artes San Carlos, além de diversos teliers experimentais. Trouxe mais de 80 gravuras e esculturas, das quais selecionei 57 peças para a individual da Galeria 75-BC corde, retrpectiva 77/79 - collages, desenhos, litografias, relevos e rigrafias da série " análises combinatórias" e as esculturas da série " interioridade-metacentro" (77/79), que se seguiram às peças-ilustrição de 1970, a fase cubista dos orixás (1972), " metabole da forma (1974) e " continuidade-eternidade" (1976). Deste resumo, terei o direito de me sentir realizada?

 REPORTER: Quais as culturas negras mais importantes no Brasil?

 IRACY: Bantos e nagôs foram as que mais se destacaram. Os bantos eram provinientes de Angola e do Congo e abasteceram o mercado de escravos desde o século XVII. Trouxeram folcore, instrumentos de sopro, hogos de luta e defesa e o complexo etnográfico do samba.

 Os nagôs (ou iorubas, ou egbás, como eram chamados no Brasil) provinham da cultura sudanesa da Nigéria, Togo, Daomé e da Costa do Marfim. Exerceram prodigiosa influência social e religiosa e formaram uma espécie de elite da massa escrava, trazendo as divindades conhecidas como orixás, os candomblés e a influência religiosa na Bahia, os instrumentos musicais, culinária e a indumentária da negra baiana. Nas máscaras deste grupos étnicos nota-se grande sentido de criatividade. estas más caras, bem como as peças réplicas antropológicas foram feitas para a olustração do livro Arte Negra na Cultura Brasileira, em que eu abordo a vivência do negro na cultura brasileira, nas relações familiares, na culinária, nos trajes, na música, idioma, religião, movimentos cívicos e sobretudo, na arte.

 REPORTER: Iracy, de que forma você define a fase atual de suas esculturas que você chama de " interioridade-metacentro"?

 IRACY: A escultura atual é baseada em sete modulos criados para a série " interioridade", através de diversas composições baseadas nessa peças, às vezes até voltadas à informalidade do abstrato. Mas, na realidade, elas são a imagem lógica, intencional da repetição da forma (metabole), se pretendesse estabelecer uma comparação sutil ao configurar a representação de uma ideia em termos diferentes. O conceito de interioridade, abrangendo teorias apuradas do princípio de metacentro, do ponto de vista da ausência do que podesse chamar, non sentido racial, a interioridade da forma e da alma negra - é sumamente interessante e valido sob o ponto de vista de filosofia formal. Meta como prefixo grego, deslocação, transposção, sucessão ou a correlação, o relacionamento, interligação justaposição de fromas negativas e positivas, interpretações teticas dessas formas e espaços que, embora se distanciem, continua existindo, entretanto, como um novo espaço virtual, constituem-se no que chamaria meta-espaço, ou seja, considerar o conceito de espaço entre dois corpos e o que eles possam contar como o ponto vital e o que mais importa - e não simplesmente o conceito de metacentro como ponto determinantte da estabilidade ou equilíbrio desses corpos flutuantes. Os estudos e experiências em busca dos valores como meio de expressão dentro de " formas negras", por a sim dizer, que, contendo variáveis, com elas se relacionam, restaram numa espécie de iconografia modular da forma, a partir justamente delas - o espaço que se encontra ou se encaixa entre os dois corpos concretistas, semelhantes ao S da simbologia do taomo chinês, e, ainda, a decomposição da cruz gamada em pesquisa que realizei em Paris, inspirada nos ornamentos das tribos da Gné e da Costa do Marfim para a série " construções programadas".

 E é através da análise e de um processo muito pessoal que chego à " interioridade" como símbolo do conteúdo hermético, como um caminho metafísico, do conhecimento consciente da razão pura com um objetivo essencial como doutrina- o metacentro- aqui definido não como o ponto de estabiliddade de um determinado corpo, mas de maneira formal, intrínseca: a relação de semelhanças metaforica, a metade de dois elementos ou módulos na qual o espaço componente entre eles - a " interioridade" - faz parte do todo e a ela se integra virtualmente, como ponto de partida para a forma vital. Assim deveria definir, destilar ou refinar ideias que apenas são representadas através da escultura, tentando explica-las, estabelecer relações ao que poderia corresponder à ideia de interioridade. aglutinada aos sete módulos-base componentes da série. Sem pretender levantar toda uma filosofia em torno do tema, procuro apenas, explicar minha criatividade em relação à forma, à temática e suas consequências, dentro da ideia do espaço central vivo, aparentemente vazio mas que está, no entanto, cheio de conteúdo tradicionalmente espiritual em sua extensão indefinida.

 REPORTER: Qual a sua opinião em relação à critica?

 IRACY: Evidentemente, por ter geralmente acuidade e isenção de julgamento - e ser honesta - a crítica é importantissima para o artista, porque, via de regra, vais conferir segurança de estarmos ou não no caminho certo. Sua função é orientar e explicar a criação; o elogio facil é um equivovo lamentavel, mesmo porque de modo algum ele altera o valor da obra e nem é mister do crítico promover o artista; respeito-a profundamente e considero fundamental.

 REPORTER: Você tem algum ideal ?

 IRACY: Diversos - um deles é o Museu de Arte Negra. Num país em que a dimensão africana formadora da sua realidade social e se reflete em todas as manifestaçôes de cultura e influências, é lamentável não termos um Museu de Arte Negra. Já recebi correspondencia até do Presidente do Senegal, neste sentido; mas o velho sonho, cuja necessidade prescinde qualquer justificativa, até mesmo para promoções culturais, estimular estudantes e converter-se num atelier de pesquisas capaz de orientar e abrir novos rumos para as artes plásticas brasileiras, ficou no projeto. Estudiosos, intelectuais e críticos de arte pronunciaram-se em favor do Museu e Walmir Ayala afirmou: " sempre me bati pela exportação em termos de Brasil e por artistas que retomam nossas raizes e as unversalizam. Temos que dar um recado condizente com nossa realidade; devemos levantar uma iconografia rústica e selvagem para manter o sintoma da raça, as caracterísiticas do sangue. " Infelizmente, restrita a alguns poucos colecionadores, verdadeiras joias da arte africana desagregam-se em tímidas prateleiras, ante o descaso de muitos e ao sabor das traças. Discriminação odosa, terrível equivoco! Omissão injustificável face à decisiva eligítima atuação do africano ao que se constitui nossa personalidade nacional.