Paranóia ou mistificação?
A mais violenta crítica à exposição
de Anita Malfatti foi a de Monteiro Lobato, publicada
em dezembro de 1917, em O Estado de São Paulo,
intitulada Paranóia ou mistificação?
Veja um trecho:
"Há duas espécies de artista. Uma
composta dos que vêem normalmente as coisas e
em conseqüência disso fazem arte pura, guardando
os eternos ritmos da vida, e adotados para a concretização
das emoções estéticas, os processos
clássicos dos grandes mestres. (...) A outra
espécie é formada pelos que vêem
anormalmente a natureza, e interpretam-se à luz
de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica
de escolas rebeldes, surgidas cá e lá
como furúnculos da cultura excessiva. São
produtos do cansaço e do sadismo de todos os
períodos de decadência: são frutos
de fins de estação, bichados ao nascedouro.
Estrelas cadentes brilham um instante, as mais das vezes
com a luz do escândalo, e somem-se logo nas trevas
do esquecimento. Embora eles se dêem como novos,
precursores duma arte a vir, nada é mais velho
do que a arte anormal ou teratológica: nasceu
com a paranóia e com a mistificação.
De há muito já que a estudam os psiquiatras
em seus tratados, documentando-se nos inúmeros
desenhos que ornam as paredes internas dos manicômios
esta arte é sincera, produto ilógico de
cérebros transtornados pelas mais estranhas psicoses;
e fora deles, nas exposições públicas,
zabumbadas pela imprensa e absorvidas por americanos
malucos, não há sinceridade nenhuma, nem
nenhuma lógica, sendo mistificação
pura".
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