A ÉPOCA DE ANITA MALFATTI
“Pensei, o artista esta certo. A luz do sol é
composta de três cores primárias e quatro
derivadas. Os objetos se acusam só quando saem
da sombra, isto é, quando envolvidos na luz...
Nada neste mundo é incolor ou sem luz.”
Anita Malfatti
O Brasil no início do século XX vivia
um período de estabilização do
regime republicano, porém parecia ainda não
ter saído do século XIX quanto ao desenvolvimento
econômico, muito inferior ao alcançado
pela Europa e Estados Unidos. O país encontrava-se
endividado. As maiores fontes de recursos eram as poucas
indústrias quebradas, e a agricultura, voltada
para a exportação do café, do cacau
e da borracha.
A Europa continuava a exercer influência cultural
muito forte, rica e variada, especialmente nas classes
mais abastadas, que consumiam seus produtos industrializados
e artigos de luxo.
A Primeira Guerra Mundial (1914 – 1918) acarretou
profundas mudanças nos diferentes setores da
vida humana, no mundo todo. No Brasil, as importações
foram suspensas e cresceu mais ainda o fluxo de famílias
européias empobrecidas que vinham em busca de
trabalho e de uma vida melhor. O processo de industrialização
e de urbanização foi estimulado, acentuando
os contrastes sociais, particularmente entre a aristocracia
rural e o proletariado, este constituído principalmente
por imigrantes e por negros recém-libertados
e marginalizados.
No aspecto cultural, ritmos e artistas nacionais começavam
a ser valorizados. Nos chamados ritmos populares, a
modinha, o maxixe e a toada substituíam a polca
e a valsa européia nos salões de dança.
Na música erudita despontaram artistas, como
o cearense Alberto Nepomuceno.
Em 1901 o Carnaval firmava-se como festa popular, e
Chiquinha Gonzaga divulgava a marcha “Ó
abres alas”. Em 1904 o gramofone ajudou a difundir
a música por todo o país. Na literatura,
fazia-se presente um traço conservador e acadêmico
da linguagem parnasiana com Raimundo Correa e Olavo
Bilac, bem como o trabalho inovador com Manuel Bandeira,
Ronald de Carvalho e Oswald de Andrade. Na pintura,
as tendências artísticas da segunda metade
do século XIX, que pareciam perpetuar-se no academismo
de Rodolfo Amoedo por exemplo, já sofriam mudanças
com a produção de alguns artistas, como
Eugênio Latour e Elizeu Visconti, que punham em
evidência o Impressionismo. Só mais tarde
a pintura brasileira deu sinais claros de renovação,
com a exposição de Lasar Segall, em 1913,
e com a exposição de Anita Malfatti, que
em 1917, recém-chegada da Europa, trazia na bagagem
a experiência de seus contatos com as obras impressionistas
e as vanguardas européias, em especial o Expressionismo
Alemão. Assim a arte moderna chegava ao Brasil
não por evolução, mas por ruptura.
Finda a Primeira Guerra em 1918, na década de
1920 expandiu-se por todo o mundo certa euforia pelo
desejo de aproveitar a vida: comemorava-se a paz e rompia-se
com os velhos preconceitos. Mas o mundo não era
mais o mesmo. Os Estados Unidos haviam passado a dominar
a economia, exportando para a enfraquecida Europa e
para as Américas carros, aviões, rádios
e outros eletrodomésticos aperfeiçoados
a partir de armas bélicas para serem incorporados
à nova sociedade de consumo de massa, que se
formava.
A França continuava a ser o berço cultural
das vanguardas européias. O Brasil também
foi influenciado pelas novas idéias artísticas
que surgiram. A assimilação dessas propostas
culminou, na década de 1920, com a busca de novas
formas de expressão, integrada a temas brasileiros
e à valorização das raízes
populares, o que levou ao resgate da imagem do negro,
do índio e do caipira, do folclore regional,
da cozinha típica, das crenças e músicas
e à incorporação da fala “errada”
do povo – mistura dos idiomas falados na Europa
com o Português.
Anita Malfatti foi pioneira na implantação
da arte moderna no Brasil com sua exposição
de 1917, tão criticada e comentada, mas ao mesmo
tempo instigante e arrojada.
Numa verdadeira cruzada cultural, Anita Malfatti uniu-se
a um grupo de intelectuais, hoje conhecidos como “modernistas”,
que pretendia mesclar toda essa cultura popular com
o desenvolvimento urbano e industrial que se dava, em
ritmo alucinante, nas grandes cidades do país.
Assim decidiu-se realizar em São Paulo, em fevereiro
de 1922, a Semana de Arte Moderna.
Créditos: Lígia Rego (especialista
em arte-educação pela Universidade de
São Paulo) e Lígia Santos (arte-educadora)