A idéia da realização de uma semana
de arte, para divulgar as novas posições
artísticas, cabe a Di Cavalcanti, quando do lançamento
de seu álbum Fantoches da Meia-Noite, editado pela
Casa Editora O Livro, de Jacinto Silva, em São
Paulo, em novembro de 1921. É também atribuída
à senhora Paulo Prado, d. Marinette Lebrun, que
sugere que se faça algo como em Deauville, França:
temporadas com diferentes festivais, mesclando moda, exposição
de quadros, concertos e outras atrações.
Di Cavalcanti se entusiasma e leva adiante a proposta
do evento, que marca o início do modernismo no
Brasil.
No dia 29 de janeiro de 1922, o jornal Correio Paulistano
anuncia a "Semana de Arte", que acontece entre
os dias 11 e 18 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal
de São Paulo: "Diversos intelectuais de
São Paulo e do Rio, devido à iniciativa
do escritor Graça Aranha, resolveram organizar
uma semana de arte moderna dando ao nosso público
a perfeita demonstração do que há
em nosso meio em escultura, pintura, arquitetura, música
e literatura sob o ponto de vista rigorosamente atual".
A presença de Graça Aranha, autor de
Canaã, na Semana de Arte Moderna, dada como "iniciativa",
é importante devido ao seu prestígio nos
meios intelectuais da época.
A Comissão Patrocinadora da Semana é
formada por Paulo Prado, Alfredo Pujol, Oscar Rodrigues
Alves, Numa de Oliveira, Alberto Penteado, René
Thiollier, Antônio Prado Júnior, José
Carlos Macedo Soares, Martinho Prado, Armando Penteado
e Edgar Conceição.
|
|
Da
esquerda para direita e de cima para baixo: o
jornalista italiano Francesco Pettinati, René
Thiollier, Manuel Bandeira, Afonso Shimidt, Paulo
Prado, Graça Aranha, Manoel Vilaboin, Goffredo
da Silva Telles, Couto de Barros, Mário
de Andrade, Cândido Mota Filho. Sentados:
Rubens Borba de Morais, Luiz Aranha, Tácito
de Almeida, Oswald de Andrade. |
O Correio Paulistano, de 29 de janeiro de 1922, publica
a relação de "artistas modernos"
presentes na Semana:
"Música - Villa-Lobos, Guiomar Novaes,
Paulina D'Ambrosio, Ernani Braga, Alfredo Gomes, Frutuoso
e Lucília Villa-Lobos.
Literatura - Mário de Andrade, Ronald de Carvalho,
Alvaro Moreyra, Elysio de Carvalho, Oswald de Andrade,
Menotti del Picchia, Renato Almeida, Luiz Aranha, Ribeiro
Couto, Deabreu, Agenor Barbosa, Rodrigues de Almeida,
Afonso Schmidt, Sérgio Milliet, Guilherme de
Almeida, Plínio Salgado.
Escultura - Victor Brecheret, Hildegardo Leão
Velloso, Haarberg.
Pintura - Anita Malfatti, Di Cavalcanti, Ferrignac,
Zina Aita, Martins Ribeiro, Oswaldo Goeldi, Regina Graz,
John Graz, Castello e outros.
Arquitetura - A. Moya e Georg Przyrembel."
A relação dos artistas divulgada pelo
Correio Paulistano é contestada por artistas
e membros da comissão patrocinadora do evento.
Enrico Castello e Regina Graz, em depoimento, afirmam
não ter participado da exposição.
Anita Malfatti diz ao historiador Paulo Mendes de Almeida
que nem todos os artistas estão representados
na lista. Outros não constam da relação,
como J.F. (Yan) de Almeida Prado e Vicente do Rego Monteiro,
segundo o livro A Semana de Arte Moderna, de René
Thiollier.
Tanto Martins Ribeiro como Oswaldo Goeldi não
puderam ser confirmados posteriormente por Aracy Amaral
como participantes, em depoimentos obtidos de seus contemporâneos.
A Semana, com seus três festivais ocorridos nas
noites de 13 e 17 e na tarde de 15 de fevereiro, é
realizada no Teatro Municipal, alugado por 847 mil-réis
pelo "empresário" do evento, o escritor
René Thiollier, a quem Paulo Prado solicita a
colaboração.
Pouco ou quase nada é divulgado pelos jornais
na época sobre a exposição de artes
plásticas. As publicações registram
apenas poucos comentários sobre as obras, por
Sérgio Milliet, Graça Aranha, Menotti
del Picchia, Mário de Andrade, e as defesas de
Oswald de Andrade aos artistas presentes em geral: "No
saguão do Municipal, estarão expostas,
desde às 20 e meia hora, esculturas e pinturas
futuristas".
A exposição de arte moderna acontece
no saguão do Teatro. Fica aberta ao público
durante os oito dias do evento. Os artistas expositores,
que se dizem "vanguardistas", apresentam-se,
segundo a descrição de Yan de Almeida
Prado, à esquerda e à direita da escadaria,
onde se encontram os relevos de Brecheret. No centro
do saguão, há outros trabalhos de Brecheret
e a maquete da casa da Praia Grande, do arquiteto polonês
Georg Przyrembel.
Às noites, o público lota o saguão
do Teatro. "Não havia quem não se
deixasse tomar de pavor e êxtase, ao defrontar
com os horrores épicos da senhorinha Anita Malfatti.
E não a poupavam!", relata René Thiollier.
Mas Anita não é a única criticada.
Os passadistas não se colocam somente contra
as artes visuais. Direcionam sua fúria ao movimento
e ao conjunto das inovações artísticas
apresentadas na música, pintura, escultura e
poesia durante os dias em que transcorreu a Semana de
Arte. Assim, instaura-se um debate que permeia a década
de 1920, na imprensa e nos círculos intelectuais
e artísticos nacionais.
Mas, no dia 14 de fevereiro de 1922, uma nota no jornal
Correio Paulistano registra: "Nunca os nossos artistas
se congregaram em hostes, ligando num mesmo elo a pintura,
a escultura, a música e a poesia. Essas formas
de expressão emotivas andaram sempre, se não
divorciadas, pelo menos isoladas e quase interdependentes.
Sob esse ponto de vista, a Semana de Arte Moderna é
digna de nota".