Durante os anos de 1920 e 1921, "o grupinho de intelectuais
paulistas" reúne-se para discutir, no ateliê
da pintora Anita Malfatti, nos bares da cidade, na redação
do jornal Correio Paulistano ou no apartamento de Oswald
de Andrade. Suas idéias são publicadas em
artigos na imprensa, provocando e envolvendo a área
cultural da época.
Ao contrário da década anterior, os modernistas
estão, agora, informados sobre o futurismo e
debatem seus principais autores. Guilherme de Almeida,
Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Menotti
del Picchia, todos lêem as brochuras futuristas.
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Oswald
de Andrade e Guilherme de Almeida |
Nesse primeiro momento, para romper com os princípios
e as técnicas, o grupo dispõe-se a tudo,
inclusive a aceitar as idéias de Marinetti. "Afinal,
Marinetti oferecia, aos descontentes, uma doutrina,
e a dialética poderia torná-la ampla,
capaz de compreender um sem-número de direções.
Ademais, pela rebeldia de suas opiniões e pela
estranheza de suas realizações (ou pelo
menos declarações públicas), já
estavam catalogados como perturbadores da ordem estética...
Ser futurista poderia valer por um título de
glória", conta o historiador Mário
da Silva Brito.
Para os intelectuais e o público da época,
o futurismo é tudo aquilo que parece diferente
ou inusitado, assim considerado pelos críticos
conservadores, em 1920 e 1921. Passa a ser futurista
tudo o que se afasta dos padrões convencionais
vigentes.
São futuristas – segundo a visão
conservadora – Brecheret, Vicente do Rego Monteiro,
Di Cavalcanti, Anita Malfatti e John Graz. Esses artistas
estão no saguão do Teatro Municipal como
representantes, entre outros, das artes plásticas
na Semana de Arte Moderna, uma idéia de Di Cavalcanti
levada a efeito pelo grupo modernista e por patrocinadores
pertencentes à sociedade paulistana. Assim como
o são Guilherme de Almeida, Mário de Andrade,
Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, entre outros
escritores.
Mário já negara ser futurista, em artigo-resposta
a Oswald de Andrade. Também o faz num trecho
do "Prefácio Interessantíssimo",
de seu livro Paulicéia Desvairada, publicado
em 1922, após a Semana de Arte Moderna:
"Não sou futurista (de Marinetti). Disse
e repito-o. Tenho pontos de contato com o futurismo.
Oswald de Andrade, chamando-me de futurista, errou.
A culpa é minha. Sabia da existência do
artigo e deixei que saísse."
A polêmica entre os dois inicia-se no ano anterior,
1921, o que não impede a concretização
da Semana de Arte Moderna, pois os modernistas lutam
por uma "arte livre". Se 1920 é de
planejamento e de opções, o ano seguinte
é marcado por ser de combate, rompimento, hostilidade,
afirmações, conquista de terreno e preparo
para o grande evento, pela derrubada das regras e sistemas
em busca de meios amplos de expressão e comunicação.
O ano de 1921 inicia-se com o discurso de Oswald de
Andrade a Menotti del Picchia no Trianon, São
Paulo, prenunciando o clima da Semana de Arte. Termina
com o artigo "A Moderna Orientação
Estética", de Cândido Motta Filho,
publicado no Correio Paulistano, em 17 de outubro:
"A arte, sendo manifestação da Vida,
não pode furtar-se às leis da vida. As
filosofias variam; as ciências variam; a moralidade
varia; o costume varia; o Universo vive em constante
transformação; os seres variam, os minérios
endurecidos variam. Por que a arte há de ser
mumificada, há de estancar-se diante da muralha
chinesa? Hoje, os heróis da estética estão
vendo a realização de seu sonho. A Arte
será, como sempre foi, o espelho de uma época.
Modificar-se-á com os caprichos incompreensíveis
da vida; mas, em todas as suas manifestações,
terá liberdade, imensa liberdade. Imitar o clássico,
copiar o passado, cingir-se e estritamente, a ele, é
matar a arte. Ela é a inspiração
e não imitação; arte é sentimento
livre e não servilismo. Como impor à ultra-sensibilidade
moderna o passado calmo, diverso, para nós, quase
que incompreensível? A Arte tem algo de Proteu.
E encarar a Arte é encarar Proteu. Absurdo!"