A PINTURA CHINESA
Para um ocidental a aproximação à
pintura chinesa se efetua através de um caminho
cheio de dificuldades.
Não só se encontra confrontado com umas
técnicas, suportes e formatos que lhe resultam
caros, mas também com um conceito do espaço
diferente ao seu e sobretudo com um sentimento de natureza
e da vida absolutamente estranhos a sua própria
estrutura mental. No Ocidente, escritura e imagem estão
radicalmente dissociadas, o conceito de pintura se baseia
sobre o do quadro enquanto que uma “janela aberta
para o mundo” (e portanto com um “marco”
que limita o campo de visão) e a imagem do pintor
è a de um “profissional” que até
o nosso século, quando abriu uma passagem as
concepções abstratas, produzindo-se uma
liberação e uma diversificação
nas atitudes – buscava a procura de um prazer
estético ao mesmo tempo que imitava com a maior
fidelidade possível as aparências da realidade
visual em suas proporções dos elementos
da natureza ou em suas ilustrações do
dogma ou da história. Dentro desta linha de simplificações
podemos acrescentar que seu conceito de espaço
é fundamentalmente unitário e imóvel,
baseado nas leis da perspectiva central (e por conseguinte
com todas as linhas da representação convergindo
num único ponto de fuga) e que sua noção
da forma é essencialmente plástica, tridimensional,
procurando sempre representar o volume mediante o moldado
e uma correta aplicação das luzes e das
sombras. Pois bem: todas estas noções
se encontram negadas total ou parcialmente na pintura
chinesa. Generalizando, como fizemos anteriormente,
podemos dizer que a pintura chinesa, realizada usualmente
sobre papel ou sobre seda formando rolos horizontais
(cheu) ou verticais (shu-kiüen), não parte
da existência do marco, negando-se assim a circunscrever
o espaço tal como se faz na pintura ocidental
e avaliando os vazios de uma forma desconhecida nesta
pintura. Por outra parte, não pressupõe
um ponto de vista único e um espectador imóvel:
ao contrário, ao abrirmos o rolo assistimos a
uma sucessão de cenas com diferentes pontos de
fuga e o espectador se vê convidado a percorrer
a paisagem entrando por seus vales, cruzando as pontes
que atravessam os rios, parando diante de arvores agitadas
pelo vento ou escalando os cumes das montanhas.
Alguns autores compararam esta visão espacial
à sensação que se experimenta diante
de uma sucessão fílmica de imagens; outros,
à de uma paisagem vista através da janela
de um trem. As comparações são
forçosamente imprecisas e com toda certeza impróprias,
mas o certo é que na pintura chinesa se configura
um universo e um sentido do espaço essencialmente
dinâmicos e que o espectador é impelido
para o interior da paisagem. Embora se utilize mais
de um método de perspectiva, a visão chinesa
do espaço é geralmente panorâmica.
Ao contrário do que sucede na pintura ocidental,
se pressupõe que a linha do horizonte para onde
convergem todos os pontos de fuga não está
situada na frente mas atrás do espectador e isso
tem como conseqüência que ao serem projetados
sobre a superfície pictórica discordam
com a distância. Por outra parte, e acostumados
por seus hábitos de leitura, percorrem a imagem
da direita para a esquerda e de cima para baixo, o pintor
chinês tende a enfocar a paisagem do mesmo modo:
como o vôo de um pássaro e seguindo uma
linha diagonal que vai desde o ângulo superior
direito ao inferior esquerdo. O resultado de tudo isso
é a consecução de umas amplitudes
espaciais desconhecidas na arte ocidental. A natureza,
limitada, cobra dimensões quase cósmicas
e, ao se sentir imerso nelas, o homem cobra consciência
de sua própria infância.

O conceito da forma também é diferente
na pintura chinesa. Esta pintura não procura
realçar a plasticidade das formas acentuando,
através de sombras, seu volume. Ao contrário,
se centra em extrair, através da linha, seus
ritmos essenciais e característicos e rejeita
portanto se utilizar das sombras que não constituem
nada mais que um elemento acidental que pode contribuir
para velar a verdadeira essência das coisas. Com
isso nos enfrentamos às noções
diferentes de “realismo” que utilizam a
pintura ocidental e a chinesa. Para a primeira, o conceito
de realismo se baseia na transcrição fiel
da realidade visual e na representação
do concreto e portanto do acidental. Para esta última,
uma visão semelhante do fato pictórico
não tem sentido, salvo talvez no campo do retrato.
Os pintores chineses estudam minuciosa e amorosamente
as árvores, flores ou os pássaros e se
esforçam em captar sua individualidade; mas o
que lhes interessa é registrarem o seu ser íntimo
e não sua superfície e muito menos qualquer
aspecto acidental, pois sua visão da pintura
não se detem na representação do
concreto. Ao contrário, o trabalho pictórico
é um meio de entrar em contato com a harmonia
cósmica, um exercício destinado a descobrir
os ritmos vitais da natureza ou a expressar sentimentos
e idéias universais que se revelam através
do artista e de sua comunhão com a natureza.
Desse modo, podemos considerar que toda a pintura chinesa
tem um caráter simbólico dado que a representação
das montanhas, árvores ou rios é utilizada
apenas como veículo de expressão para
sentimentos ou noções abstratas. Por outra
parte, ao ser entendido assim, o exercício da
pintura, se converte numa das mais altas atividades
humanas e ao mesmo tempo num meio de aperfeiçoamento
pessoal, adquirindo uma natureza quase religiosa. Antes
de começar a pintar, os preceptores afirmarão,
o artista deverá ter alcançado um estado
determinado de pureza e equilíbrio que lhe permita
se inserir nas forças do universo; do mesmo modo,
a contemplação exige um estado de ânimo
propício.
Os testemunhos escritos que fazem referências
às decorações murais dos palácios
e a algumas amostras que sobreviveram até nossos
dias (os tijolos pintados com figuras humanas encontrados
em uma tumba da província de Honan, o retrato
de um funcionário em outra tumba de Wang-Hu,
as decorações de objetos de laca encontrados
na Coréia) confirmam que a existência de
uma cultura pictórica desenvolvida se remonta
na China pelo menos até a época da dinastia
Han (206 A.C. – 220 D.C.). É , no entanto,
durante o período turbulento que se seguiu à
queda dos Huan quando encontramos já claramente
formuladas as bases estéticas e as concepções
filosóficas e religiosas que teriam de informar
durante séculos o desenvolvimento da pintura
chinesa. Nesta época, dominada pela instabilidade,
pelas invasões bárbaras e pela desagregação
do Império, com o aparecimento de diversos reinos
e dinastias, as doutrinas mais capazes de fomentar a
esperança e procurar um refúgio contra
a turbulência dos tempos (o taoísmo, que
prometia a imortalidade a seus adeptos oferecendo-lhes
um arsenal de orações, ritos e práticas
mágicas destinadas a proporcioná-la, e
o budismo do mahayana) encontraram um ambiente propício
para sua expansão. Ambas influenciaram fortemente
na configuração da cultura pictórica
com a natureza em busca da Verdade no interior de si
mesmos, se encontra na base da atitude chinesa perante
a paisagem, enquanto o budismo do mahayana foi a principal
fonte da arte religiosa até o século X.
E quando, após uma curta perseguição,
ele deixou de ser uma fonte realmente significativa
no desenvolvimento da arte chinesa, a extensão
da seita Ch’an, introduzida ali no século
VI pelo sábio indiano Bodhidharma conforme uma
velha lenda, teve do mesmo modo conseqüências
transcendentais para o desenvolvimento da pintura da
paisagem.
Este budismo (chamado dhyana na Índia e zen
no Japão) rejeita os dogmas e os ritos para predicar
a procura de cada indivíduo do Buda que leva
dentro de si utilizando-se da meditação
e da contemplação da natureza. A prática
do paisagismo chegou a se converter assim num meio privilegiado
de aperfeiçoamento individual na busca da Iluminação
e os monges Ch’na tentaram expressar sua própria
visão interior e seus momentos de êxtase
através de obras baseadas no poder da sugestão,
onde ao estado de pureza e abandono alcançado
pelo artista corresponde um despojo similar nos materiais
utilizados – reduzidos ao pincel e à tinta
– e uma grande economia nos meios expressivos.
No período ao qual nos referimos, o principal
fruto pictórico da penetração budista
na China consistiu nas decorações murais
com cenas da vida de Buda ou dos paraísos celestiais
prometidos a seus adeptos. Infelizmente não chegaram
até nossos dias aquelas pinturas que seriam suas
amostras mais impressionantes, as pinturas dos templos
de Ch’ang-na, capital da dinastia T’ang;
porém, até 1949, quando foi destruída
por um incêndio, a decoração do
Kondo ou Pavilhão de Ouro do Horyu-ji no Japão,
com representações de quatro paraísos
búdicos realizadas no século VII por um
artista coreano que seguia os modos contemporâneos
chineses, mostrava uma visão adequada do esplendor
desta arte religiosa que procedia em último termo
dos afrescos indianos de Ajanta. Na própria China
permanecem um conjunto de grande importância,
pese a seu significado provincial, em Tun-huang, um
lugar situado no Turquestão onde, entre os séculos
IV e X foram escavados vários centenares de santuários
cujas paredes eram adornadas com decorações
murais. Em Tun-huang foi descoberto além disso,
em 1907, vários milhares de rolos pintados e
de estandartes representando divindades e doantes muito
próximos em estilo aos dos templos tibetanos
modernos.
As primeiras provas da afirmação de uma
cultura pictórica especificamente chinesa são
contemporâneas ou imediatamente anteriores ao
assentamento do budismo. Já nos séculos
II e III, se registra o perfeccionismo dos pincéis
de escrever e começa a se utilizar o papel e
a tinta (o uso dos rolos como suporte pictórico
poderia inclusive se remontar à época
Han) surgindo, como conseqüência de tudo
isso, um novo tipo de escritura mais flexível.
Caligrafia e pintura começam a estar intimamente
relacionadas e começamos a nos encontrar já
com pintores que são ao mesmo tempo poetas ou
eruditos. Por outra parte, a aristocracia chinesa, refugiada
no Sul devido ao avanço dos bárbaros,
descobre agora o encanto de sua paisagem verde e brumosa
e o auge do taoísmo contribui para que a natureza
se dote de um novo significado. O primeiro grande pintor
conhecido, Ku K’ai-chih, que trabalhou no final
do século IV na corte dos imperadores Chin, já
era um artista tão culto como outros tantos que
encontraremos depois.
Foi um famoso retratista que trabalhou também
na decoração de templos.

À época de anarquia e desagregação
em que a China se viu sumida, após a queda dos
Han, chegou a seu fim quando, no ano 589, Yang Chien,
fundador da dinastia Su voltou a reunificar o Norte
e o Sul, preparando assim o período de esplendor
político e cultural durante o qual a dinastia
T’ang, que sucedeu imediatamente a Su, governou
o “Império do Centro” (618 –
907). Nesta época, a obra dos pintores como Yen
Li-pen e Chang Hsuan mostra que, no campo do retrato
e das cenas com personagens, os modos pictóricos
utilizados por Ku K’ai-chih sobreviveram com escassas
variações durante muito tempo e assim
tanto no Rolo dos Treze Imperadores do Museu de Boston,
atribuído ao primeiro, como na cópia que
o imperador Hui-tsung fez do rolo Damas Preparando a
Seda de Chang Hsuan, encontramos uma delicadeza de execução,
um sentido do espaço apenas insinuado e uma preocupação
pelo aspecto compositivo e pelas agrupações
de personagens muito similares às vistas no rolo
de Ku K’ai-chih. Ao parecer, o gênero do
retrato foi renovado nesta época por Wu Tao-tse
(680 – 760), um pintor do qual não nos
chegou nenhuma obra, mas é considerado pelos
críticos chineses antigos como um dos grandes
mestres desta época, atribuindo-lhe também,
por alguns, a criação do gênero
da paisagem. Os outros dois grandes mestres desse período,
Li Ssu-hiun (650 – 715) e Wang Wei (699 –
759), foram já especificamente paisagistas.
O primeiro, que realizou paisagens panorâmicas
com altas montanhas um pouco estereotipadas e uma grande
riqueza de colorido realçada as vezes por traços
dourados, é considerado fundador da “Escola
do Norte”; também não chegou aos
nossos dias nenhuma obra mas seu estilo é conhecido
pelas paisagens realizadas por seu filho e seguidor,
Li Chao-tao. Quanto a Wang Wei, tão celebre poeta
como pintor e ao final de sua vida monge e budista,
é considerado o fundador da “Escola do
Sul”. Wang Wei defendeu, ao parecer, um enfrentamento
intelectual e sensitivo com a natureza onde os aspectos
descritivos estariam subordinados à idéia
do artista. Foi além disso, o criador da pintura
monocroma e por tudo isso aparece como um antecedente
da intelectualização, do ascetismo de
meios e da subjetivização – inclusive
da poetização – da paisagem que
será observada durante a época Sung. No
resto, essa divisão dos pintores chineses a partir
desta época em “Escola do Norte”
e “Escola do Sul”, utilizada pelos críticos
do período Ming, é algo equívoca
para os ocidentais (não define uma divisão
geográfica, mas se estabelece a partir da existência
de duas seitas Ch’na desse nome) e foi usada frequentemente
de forma bastante arbitrária. Em geral, a Escola
do Norte se distinguiria por uma maior riqueza de cores
e por um linearismo mais anguloso e rígido; a
do Sul, por um colorido mais matizado e um desenho de
maior suavidade. Devemos recordar finalmente o auge,
durante esta época, da pintura religiosa budista
(tanto Yen Li-pen como Wu Taotse se dedicaram também
à decoração de templos) e ao aparecimento
ou aperfeiçoamento de diversos gêneros
pictóricos como a pintura de animais onde se
destacaram Yen Li-pen e Han Kan, e a de “flores
e pássaros”, que contou entre seus primeiros
cultivadores com Pien Luan.
Durante boa parte do século X, a China conheceu
outro período de anarquia similar ao que havia
seguido a queda dos Han. Os impreradores T’ang,
cuja autoridade vinha decrescendo ao longo de toda a
segunda metade do século anterior, perderam o
poder no ano 906 e o país, ocupado parcialmente
no Norte por povos bárbaros, sedividiu novamente
em vários reinos (época das Cinco Dinastias)
até que no ano 960, T’ai-tsung restabeleceu
a unidade do império fundando a dinastia Sung
(960 – 1279).
Durante esse período, caracterizado, entre outros
aspectos, pela perda da influência do budismo
e pelo auge do confucionismo (convertido em doutrina
oficial e suporte ideológico do Estado) assim
como pela proteção que os soberanos prestaram
às letras e às artes, a pintura chinesa
alcançou o que talvez fosse seu momento de maior
profundidade e purificação. A transição
entre o paisagismo da época T’ang, tal
como foi cultivado por Li Ssuhiun e Li Chao-tao, e o
paisagismo monumental dos Sung começou já
a ser preparado durante o período das Cinco Dinastias
através de pintores como King Hao, Kiu Jan, Tong
Yuan e principalmente Li Ch’eng. Em todos eles
a paisagem é abordada como comunicação
e os dados da natureza, estudados sempre minuciosamente,
constituem unicamente um ponto de partida para expressar
a visão interior do artista. Suas pinturas, sempre
alternadas com rios e vales com as altas montanhas de
aspecto rochoso coroadas por árvores e surcadas
por torrentes, aparecem dominadas por um forte espírito
construtivo, pela necessidade de ligar os diferentes
planos entre si, de compensar as massas e os toques
fortes ou suaves. Ainda no século XI, Fan Kuan
e Kuo Hi (influenciado pela seita Ch’na) continuam
realizando esse tipo de representações
nas quais a visão grandiosa da natureza é
realçada pela escala infinitesimal em que os
homens – quando aparecem – estão
representados, mas no final do século, a pintura
da paisagem aparece já plenamente voltada ao
caminho da expressão, adquirindo matizes mais
poéticos e intimistas. Tanto Chão Ta-nien
(1080 – 1100) como Mi Fé (1051 –
1107) cultivaram um tipo de paisagismo renovador baseado
mais na sugestão que na descrição,
mais no poder evocador da mancha que na definição
do contorno. O primeiro realizou paisagens brumosas
e planos nos quais as árvores, rodeadas de água,
são vistas através de camadas de névoa.
Quanto a Mi Fei, cultivou o que as vezes foi definido
como uma espécie de “pontilhismo”,
com a aplicação de pequenas gotas de tinta
de diferente tonalidade, permitindo jogos muito sutis
de luz e atmosfera. Foi um dos maiores eruditos do período,
realizando um Registro de Pintura, em suas obras os
cumes arredondados das montanhas parecem flutuar sobre
as nuvens e a névoa que ocupam os vales. Nos
outros gêneros pictóricos, o primeiro período
Sung oferece os maiores contrastes. No âmbito
da Academia de Pintura, o imperador Hui-tsung (1082
– 1125), pintor e erudito, impôs na pintura
de flores e pássaros uma tendência para
o realismo. Suas próprias pinturas, abundantíssimas,
se distiguem por sua precisão descritiva, pela
finura dos contornos e pelo gosto pelo colorismo. Em
compensação, nas mãos dos cultos,
a pintura de flores e plantas se converteu num verdadeiro
campo de especialização penetrado de simbolismo
(o bambu agitado pelo vento, por exemplo, foi empregado
como símbolo do sábio que se inclina,
mas não se quebra, diante da adversidade) e abordado
frequentemente, não de um enfoque descritivo,
mas como meio de expressão da sensibilidade do
artista. Neste campo devemos mencionar Su Tung-p’o
e Wen T’ung como pintores de bambus, Chung Yen
e Yang Wu-chiu como pintores de cerejeiras e ameixeiras
e Chao Mong-kien como pintor de orquídeas e narcisos.
Os dois últimos já trabalharam no período
seguinte (época Sung do Sul). Restam finalmente
os pintores de figuras e de “gênero”.
Entre eles, Li Long-mien (1040 – 1106), alto funcionário,
poeta e antiquário ao mesmo tempo que pintor,
foi talvez o mais influente.
Budista convencido, renovou este tipo de pintura religiosa
e em representações de cavalos e palafreneiros,
inspiradas em Yen Li-pen e realizadas com um traço
contínuo (um procedimento que ele ressuscitou)
encontramos uma das características de sua época:
o estudo dos mestres do passado e a inspiração
neles.
No início do século XII, a ameaça
dos bárbaros, nunca desalojada pelos Sung, se
concretizou com a entrada pelo Norte de um novo povo,
os ju-chen, que se apoderaram de todo o Norte da China
e da própria capital levando o imperador como
prisioneiro. Hui-tsung teve assim um final triste e,
desde 1125, seus herdeiros, que controlavam apenas o
Sul do país, seguiram governando em Hangzhou,
até que um século e meio depois os mongóis
se apoderam de toda a China. Durante o período
Sung do Sul (1125 – 1279) se mantiveram, apesar
da decadência política, as tradições
do primeiro período e sua riqueza cultural. As
Academias foram reabertas e a linha poética e
subjetivista da pintura da paisagem forma mantidas com
Li T’ang (que serviu um pouco de ponte entre ambos
os períodos e foi também famoso como pintor
de gênero, o que fez que alguma vez fosse aplicado
o apelativo de “Teniers chinês”) e
sobretudo com Ma Yüan e Hsia Kuei. Encontramos
uma visão muito mais radical na obra de alguns
pintores independentes, adeptos ao taoísmo ou
pertencentes à seita Ch’na. Com Yukien,
a pintura se converte em pura mancha ajudada por alguns
traços lineares esboçados. O descritivo
cedeu totalmente o passo ante a sugestão e a
necessidade de expressão. Utilizando-se simplesmente
da tinta e das variações tonais das manchas,
Yu-kien define a profundidade, a luz e a atmosfera,
enquanto que as formas, levemente apontadas, ajudam
a configurar a visão, não de uma realidade
física mas de um estado mental. As pinturas de
Um-K’i (muito diferentes pela execução,
conforme os temas) e as de Leang K’ai pertencem
à mesma família que as de Yu-kien.
Os algo mais de cem anos (1260 – 1368) durante
os quais os mongóis controlaram a China, após
varrerem os Chin no Norte e os Sung no Sul, trouxeram
consigo mudanças importantes tais como a elevação
do budismo lamaísta na categoria de religião
oficial ou a supressão da Academia de Pintura,
mas não cortaram pela raiz o desenvolvimento
das tradições artísticas. Na pintura,
uma nova atmosfera se tornou visível de qualquer
maneira. Os soberanos Yüan e seus cortesãos
estavam muito longe de gostar do intimismo, da profundidade
e do refinamento das pinturas Sung. Suas inclinações,
ao contrário, se voltavam para a riqueza de cor,
o desenho forte e os temas cheios de vida: as caçadas,
os cavalos, os quadros de figuras, o retrato... O grande
pintor “oficial” da época foi Chao
Mong-fu (1254 – 1322), um artista pertencente
à família imperial dos Sung que consentiu
no entanto trabalhar para Khubilai Khan em 1284. realizou
paisagens esplendidas e se inspirou nos grandes animalistas
da época T’ang e Sung para suas cenas de
cavalos e caçadas, atitude em que seguiria mais
tarde outro grande animalista do período: Jen
Jen-fa.
As vias para o prosseguimento das tradições
ficaram, por outra parte, abertas graças ao grande
numero de pintores e eruditos que desejosos de não
servirem aos novos senhores, se retiraram à solidão
e nela renovaram a pintura da paisagem. Huan Kong-wang
(1269 – 1354), Wu Chen (1280 – 1354), Ni
Tsan (1301 – 1374) e Wang Meng (1308 – 1385)
foram distinguidos pelos críticos posteriores
como os quatro grandes paisagistas deste período.
Concedendo um novo papel à linha e jogando com
os valores atmosféricos e espaciais, mantiveram
a chama sagrada do paisagismo chinês viva e se
converteram com sua atitude e suas obras nos antecedentes
da “Escola de Eruditos” que viria a florescer
durante a época Ming.
A reação nacionalista que finalizou o
domínio mongol entronizando a dinastia dos Ming
(1368 – 1644) supôs uma volta programada
desde o poder ao que poderia ser considerado como as
mais puras essências chinesas.
O passado adquiriu então uma autoridade incontestável
e as formas artísticas e de pensamento tenderam
à rigidez e ao conservadorismo extremado. A pintura,
que gozava de uma rica tradição de independência
e havia servido durante séculos como leito para
a expressão da rebeldia ou dos sentimentos de
insatisfação dos eruditos diante das dinastias
estranhas ou dos modos da corte, foi um dos campos menos
afetados em seu desenvolvimento natural apesar do que
os imperadores impuseram ferreamente seus próprios
gostos (que estavam voltados para o realismo da época
de Hui-tsang na pintura das flores e pássaros
e para as pinturas de Ma Yüan e Hsia Kuei nas paisagens).
De qualquer modo, a produção pictórica
foi durante este período extraordinariamente
rica e também aparece dominada em geral pelo
conservadorismo, pelo ecleticismo e por uma certa vulgarização
do gosto assim como por um novo lançamento da
cor e pela progressiva importância que o homem
foi assumindo na paisagem, houve um bom numero de pintores
independentes, cujas obras admitem, sem descrédito,
a semelhança com as dos mestres do passado. Entre
eles, Tai-tsin (ativo entre 1430 – 1456) foi um
pintor que havia trabalhado a princípio para
a corte e foi considerado o fundador da escola de Cho
(Cho Kiang). Seu célebre rolo com pescadores
sobre barcos conservado na Freer Gallery de Washington
o mostra fazendo uso de um grafismo valente e apocopado
e de uma grande sutileza no manejo das graduações
tonais, ambas características que voltará
a ser reunido por Wu Wei (1459 – 1508), outro
grande pintor da escola. Ao contrário de Taitsin,
que foi um pintor profissional e portanto incompreendido
pela crítica dos eruditos, Shen-cheu (1427 –
1509), fundador da escola de Wu, foi erudito, poeta
e pintor ao mesmo tempo que homem virtuoso e amante
da solidão, características que o fazem
aparecer como expoente da pintura de eruditos. Suas
paisagens acusam a inspiração em Ni Tsan
e são de uma grande delicadeza e equilíbrio.
Ele e seu discípulo Wen Ch’eng-ming, também
poeta, e às vezes excessivamente eclético,
seriam considerados pela crítica imediatamente
posterior como os grandes pintores do período.
É necessário notar que esta avaliação
procede de outro homem da mesma escola, T’ong
K’i-ch’ang (1555- 1636), também um
modelo de erudito (era alto funcionário, grande
calígrafo, poeta, colecionista e crítico
ao mesmo tempo que pintor) que exerceu uma enorme influência
tanto em suas pinturas como em seus escritos.

Com os Ch’ing, manchus que se apoderaram do país
no século XVII, a cultura chinesa iniciou um
lento declínio. O aristocratismo e o conservadorismo
dos Ming já havia causado danos irreparáveis,
fazendo com que a China perdesse o pulso da história,
e embora os Ch’ing, longe de romperem com as tradições
chinesas, procurassem sua revitalização
por designações políticas, estava
claro que elas já eram incapazes de progredir
dentro de um desenvolvimento normal e assim, na pintura
e nas artes em geral, ao mesmo tempo em que foram se
tornando cada vez mais evidentes os sinais da penetração
ocidental (o jesuíta Castiglione chegou a trabalhar
em Pequim no século XVIII utilizando um estilo
misto) também se tornou claro que os novos gostos
para a riqueza, o decorativismo e o perfeccionismo formal
bem como as tendências para o realismo ou as codificações
cada vez mais freqüentes, só conduziam a
um beco sem saída. Durante o século XVII
e boa parte do XVIII, a produção pictórica
seguiu tendo entretanto um alto nível de qualidade,
visível principalmente nas obras dos “Quatro
Wang” (Wang Shemin, 1592 – 1640, Wang Kien,
1598 – 1677, Wang Huei, 1632 – 1717 e Wang
Yüan-k’i, 1642 – 1715), do pintor convertido
ao cristianismo Wu Li (1632 – 1712) e de Chu Ta
(também conhecido como Pa-ta Shan-jen, 1626 –
1705).