A ESCOLA DE BELAS ARTES E A CULTURA NACIONAL
Dentre os grandes feitos de D. João VI, como
governante de Portugal em terras do Brasil, deve-se
incluir o seu ato mandando contratar a Missão
Artística Francesa de Lebreton o que veio a ensejar
, em 12 de agosto de 1816 a fundação no
Rio de Janeiro da Escola Real das Ciências, Artes
e Ofícios. A primitiva Escola Real das Ciências,
Artes e Ofícios, depois Real Academia de Desenho,
Pintura, Escultura e Arquitetura Civil, Academia das
Artes, Academia Imperial de Belas Artes, Academia de
Belas Artes, Imperial Academia de Belas Artes, novamente
Academia Imperial de Belas Artes (título que
ostentou durante todo o 2º Império), Escola
Nacional de Belas Artes e hoje Escola de belas Artes
da UFRJ acompanhou, como seria de se esperar, muito
de perto o desenvolvimento histórico e cultural
do país.
As diretrizes para a Academia Imperial de Belas Artes
previam:
• Investir o Imperador no título de Fundador
e Protetor da Imperial Academia das Belas Artes
• Atribuir ao Ministro dos Negócios do
Império o título de Presidente do Corpo
Acadêmico
• Criar a categoria de Membros Honorários,
destinada às pessoas distintas, estimuladas pelo
amor à Pátria,aos sábios, aos homens
de ciência e ainda aos diplomatas brasileiros
em serviço no estrangeiro.
Assim é que, desde o seu início no Império,
até os tempos da República que terminou
com a revolução de 1930, a Escola de Belas
Artes não era apenas um estabelecimento de nível
superior de arte, mas , também, um centro onde
se congregavam altas personalidades do estado, das ciências,
das letras para, junto aos artistas, professores e não
professores, decidir sobre assuntos de maior relevância
para o ensino e a prática das artes da forma.
Durante a primeira República existiu um organismo
o Conselho Superior de Belas Artes que tinha composição
eclética e atuava nesse sentido. É fácil
perceber que mais de um século de existência,
com tais características, havia de ligar intimamente
a Escola aos variados aspectos da Cultura Nacional,
objeto de tamanha influência, alvo de desveladas
atenções, pode a Escola de Belas Artes
cumprir, durante largo período, função
de relevante importância na História do
Brasil.
Importância que não ficou confinada apenas
na preparação dos nossos maiores artistas
mas que se consubstanciou na realização,
pelos seus antigos discípulos, da História
de nossa terra, pela imagem. O Descobrimento, a Primeira
Missa, o Último Tamoio, Independência do
Brasil, Batalhas dos Guararapes, do Avaí, de
Campo Grande, do Riachuelo, Proclamação
da República, e tantos outros quadros foram obras
dos pintores egressos da Academia, para a perpetuação,
pela imagem, de episódios de nossa vida de nação.
A figura física dos grandes homens do Brasil,
registrados para a posteridade através de retratos
(pintados ou esculpidos) e quadros ou escultura; o culto
aos expoentes da nacionalidade prestado por meio de
monumentos e de estátuas em logradouros públicos,
representam outras das muitas contribuições
da Escola de Belas Artes para a Cultura Nacional. Mas,
onde sobrelevou o seu grande papel foi na condução
dos assuntos de conceituação das artes
o que fez através de exposições
e de doutrinação do grande público,
pela palavra escrita ou falada de seus mestres. Ser
aceito nas Exposições Gerais de Belas
Artes, promovidas pela antiga Escola, era título
de legítima ufania para os nossos artistas. Por
outro lado, era a Escola possuidora do mais importante
museu de artes plásticas do país, aquele
que tivera sua origem em obras trazidas pela corte de
D. João VI, pelos missionários e que fora
sendo ampliado com aquisições, legados,
doações e envios de pensionistas da Academia,
em estudo na Europa. Foi para comportar tão grande
e valioso acervo, que se construiu, já na República,
o imponente palácio onde estamos, o qual ocupa
toda a quadra formada pela Avenida Rio Branco, ruas
Heitor de Melo, México e Araújo Porto-Alegre.
A Revolução de 1930, marcou o início
de uma fase de declínio em nosso prestígio
junto aos poderes públicos, atitude que repercutiu
imediatamente nas elites culturais. Para acompanhar
a tendência da Revolução de derrogar
tudo quanto fora anterior ao seu evento, o Governo Provisório,
ferindo as normas tradicionais, nomeou diretor da Escola
um jovem arquiteto cheio das mais altas qualidades,
porém, não pertencente aos seus quadros
docentes.
De semelhante intervenção nos rumos da
nossa importante casa de ensino artístico, adviriam
graves conseqüências, nem todas favoráveis
à sua missão cultural. Em 1931, dissolução
do antigo Conselho Superior, de Belas Artes, organização
do Salão sem qualquer audiência da Escola,
afastamento violento de velhos mestres; em 1933, instituição
de um outro Conselho, o Nacional de Belas Artes e entrega
a esse órgão da iniciativa do Salão;
em 1937, a grande usurpação - criação
do Museu Nacional de Belas Artes, retirando da Escola
o patrimônio que acumulado em mais de cem anos.
O mais recente desmembramento que sofremos, foi a saída
do curso de Arquitetura, hoje transformado nesta grande
e importante Faculdade.
Gerson
Pompeu Pinheiro