A POP ART
É discutível qual foi a mais extraordinária
inovação da arte do século XX,
se o cubismo ou a pop art. Ambos surgiram de uma rebelião
contra algum estilo já convencional: os cubistas
achavam que os pós-impressionistas eram comportados
e limitados demais, e os adeptos da pop art, que os
expressionistas abstratos eram pretensiosos e veementes
demais. A pop art trouxe de volta às realidades
materiais do dia-a-dia, à cultura popular, na
qual as pessoas comuns extraíam da TV, das revistas
ou das histórias em quadrinhos a maior parte
de sua satisfação visual.
A pop art surgiu na Inglaterra de meados dos anos 50,
mas realizou todo o seu potencial na Nova York dos anos
60, quando dividiu com o minimalismo as atenções
do mundo artístico. Nela, o épico foi
substituído pelo cotidiano, e o que se produzia
em massa recebeu a mesma importância do que era
único e irreproduzível; a distinção
entre “arte elevada” e “arte vulgar”
foi assim desaparecendo. A mídia e a publicidade
eram os temas favoritos da pop art, que muitas vezes
celebrava espirituosamente a sociedade de consumo. Talvez
o maior nome dessa estética tenha sido o americano
Andy Warhol (Andrew Warhola, c. 1928 – 1987),
cujas inovações exerceram influência
sobre a arte posterior.
As Estampas de Warhol
No passado, as opiniões sobre Warhol variaram
enormemente. Alguns o consideravam gênio, e outros
o acusavam de ser um embusteiro fora do comum. Tendo
começado como publicitário, mesclou fotos
comerciais em sua obra, de início serigrafando-as
ele mesmo e depois transferindo o processo para os funcionários
de seu ateliê, conhecido como the Factory (“a
Fábrica”): Warhol concebia um projeto,
e os assistentes o executavam. No Marilyn diptych (Díptico
Marilyn), a imagem foi propositalmente serigrafada sem
nenhuma perícia ou exatidão, e a impressão
colorida mostra-se, no melhor dos casos, imprecisa.

Ainda assim o Marilyn diptych é obra que atrai
e impressiona, originando-se de algo bem no fundo da
psique de Warhol. Ele era fã ardoroso das celebridades
e entendia o caráter transitório da fama;
estava, porém, mais interessado na idéia
da devoção do público americano
à celebridade como um símbolo cultural
da época. Entregando-se à maquina da publicidade,
Marilyn foi destruída como pessoa, e o estilo
absolutamente neutro e documental de Warhol reproduz
a impessoalidade e o isolamento que caracterizam essa
fama. No díptico, um mar de rostos – todos
parecidos e, ainda assim, sutilmente diferenciados –
encara-nos com uma máscara icônica. É
uma obra inesquecível.
Roy Lichtenstein
Ironicamente, a primeira incursão de Andy Warhol
na pop art baseava-se em imagens tomadas a histórias
em quadrinhos, mas o marchand ao qual mostrou esse trabalho
não se interessou, pois já fora conquistado
pela arte do também americano Roy Lichtenstein
(1913- ), outro dos grandes nomes do movimento.

Há, claro, um elemento de nostalgia em obras
como a de Roy Lichtenstein: o mundo dos gibis, mundo
da infância e da primeira adolescência,
com todo o seu lado inocente e esperançoso. Roy
Lichtenstein viu as dimensões icônicas
dessas imagens e recriou-as na escala ampla que os expressionistas
abstratos preferiam. Sua Whaam não é transcrição
de uma história em quadrinhos, e sim uma imagem
que ele reduziu ao essencial, a seu vigor aerodinâmico.
Whaam diz respeito à violência e a como
podemos ficar longe dela. É um díptico
narrativo: de um lado, as forças do bem, o anjo
vingador no avião; de outro, as forças
do mal, o inimigo destruído no clarão
estilizado que representa o poder punitivo. O pintor
usa formas e cores simples e copia a retícula
dos materiais impressos para, assim, levar-nos de volta
ao mundo simplificado do preto-e-branco moral e à
nostálgica ingenuidade da infância.
Jasper Johns
Dancers on plane; Merce Cunningham é
a homenagem do americano Jasper Johns (1930 - ) ao trabalho
de Merce Cunningham, o coreógrafo de vanguarda.
Dancers on a plane (Bailarinos num plano) é uma
pintura extremamente bela e, em termos conceituais,
extremamente complexa. O talento supremo de Johns está
em criar visualmente um conceito bastante difícil:
o artista encanta o olhar de tal modo que nos leva a
explorar esse conceito. Dancers on a plane exibe as
complexidades da satisfação religiosa
(o modo pelo qual o lado terreno da vida, o esquerdo,
será divinamente transformado após a morte,
o lado direito) e dos relacionamentos sexuais; mostra
também o caráter quadridimensional do
movimento de dança exibido num “plano único”,
a tela em que os passos combinam-se como parceiros.

É um quadro gratificante, que recompensa o tempo
dedicado a sua contemplação. Proporciona
prazer mesmo quando lhe damos apenas uma olhadela, pois
Johns satisfaz em todos os níveis.
Robert Rauschenberg
A influência do dadá e do surrealismo
conduziu o americano Rauschenberg (1925 - ) a uma forma
de arte inteiramente nova, na qual ele usa objetos prosaicos
em justaposições incomuns. Essas pinturas,
chamadas combines (“Combinações”),
são a especialidade de Rauschenberg. Canyon é
um exemplo. O artista fez uma desconcertante mistura
de imagens e técnicas: pintura a óleo
combinada a fotos serigrafadas, a textos de jornal e
a simples garatujas pitorescas. Mas, abaixo dessa algazarra
vital e intensa, uma ave morta paira com as lúgubres
asas abertas. Há uma vertiginosa sensação
de planar nos ares, de levantar vôo para o canyon
do desconhecido. Percebemos que o desfiladeiro localiza-se
menos na pintura que abaixo dela: em vez de estar lá
dentro, enquadrado onde não representa perigo,
encontra-se em nosso próprio espaço pessoal.
A saliência onde a ave se empoleira projeta-se
em diagonal para o mundo do observador; dessa saliência,
pende molemente uma almofada, disposta em duas bolsas
que parecem estranhamente eróticas e patéticas.
Todos os elementos da obra, bidimensionais ou tridimensionais,
combinam-se numa impressão de clausura, como
se de fato estivéssemos acuados entre as altas
paredes nuas de um canyon rochoso.

Em Rauschenberg, há uma sandice inspirada que
nem sempre tem o resultado esperado pelo artista; mas,
quando ele consegue o efeito desejado, suas imagens
são inesquecíveis.
David Hockney
Estritamente falando, é fato que o movimento
pop tenha começado na Inglaterra, com Richard
Hamilton (1922 - ) e David Hockney (1937 - ). As primeiras
obras de Hockney fazia esplêndido uso de imagens
ao estilo daquelas revistas populares nas quais se baseia
muita pop art. Mas nos anos 60, quando Hockney se mudou
para a Califórnia, ele reagiu com enorme profundidade
artística ao mar, ao sol, aos rapazes e ao luxo,
tanto que sua arte assumiu uma dimensão inteiramente
nova, cada vez mais naturalista. Embora se possa considerar
A bigger splash (Um agito maior) uma visão do
mundo mais simplista do que simplificada, ele ainda
assim produz encantadora interação entre
as impassíveis verticais rosadas de um canário
em Los Angeles e a exuberância do borrifo de água
quando o nadador oculto mergulha na piscina.

Aqui não há nenhuma presença humana
visível, apenas a cadeira solitária e
vazia e um mundo árido e quase paralisado. No
entanto, a grande espadana branca só pode ter
sido produzida por um ser humano, e muito da psique
de Hockney está envolvido na mistura de lucidez
e confusão que vemos nessa pintura.