"O MUNDO ANTIGO"
Os egípcios amavam demais o mundo terreno para
acreditarem que os seus prazeres chegassem necessariamente
ao fim com a morte. Achavam que pelo menos os ricos
e poderosos poderiam desfrutar as delicias da vida pela
eternidade afora, desde que as imagens desses falecidos
fossem reproduzidas em suas respectivas tumbas. Assim,
boa parte da pintura egípcia era feita em prol
dos mortos. Entretanto, é possível que
os egípcios não julgassem que garantir
uma boa vida após a morte exigisse muito gasto
e que, por isso tenham escolhido a pintura como um recurso
que poupava mão de obra e cortava gastos. Em
lugar da dispendiosa arte escultórica ou da pedra
talhada, empregava-se uma expressão artística
mais barata, a pintura. Em todo o caso, é certo
que o estilo de pintura cerimonial e formal usado nas
paredes das tumbas não era o único disponível.
Hoje sabemos que , ainda em vida, egípcios ricos
tinham murais em casa e que estes eram elaborados em
estilos pinturescos de rica textura. Infelizmente, só
perduraram pequenos fragmentos desses murais.
A Pintura nas Tumbas Egipcías
Talvez uma das imagens mais impressionantes das tumbas
egípcias sejam os “Gansos de Medum”,
três majestosas aves da tumba de Nefermaat (um
filho de Snefru, o primeiro faraó da IV Dinastia)
e de sua esposa Itet.

Os gansos, que remontam a mais de 2 mil anos antes
de Cristo, são apenas um detalhe num friso pictórico
na antiga cidade de Medum, mas já sugerem a vitalidade
e pujança dos triunfos escultóricos que
estavam por vir. Outra pintura egípcia, da tumba
de Ramose, mostra uma procissão funerária
de Mulheres Lamentosas. Ramose foi ministro de Amenófis
III e Amenófis IV (mais conhecido como Akhenaton),
dois faraós da XVIII Dinastia. Nessa pintura,
as mulheres são bidimensionais e esquemáticas,
mas os gestos angustiados vibram com o pesar.

Para os antigos egípcios, o que importava era
a “essência eterna”, aquilo que constituía
a visão de uma realidade constante e imutável.
Portanto, sua arte não se preocupava em variar
as aparências para atingir efeito visual, e até
mesmo a arguta observação da natureza
(em figuras que aparentemente eram pintadas de memória)
submetia-se a uma rígida padronização
de formas, as quais muitas vezes se transformavam em
símbolos. Se as cenas egípcias parecem
definitivamente irreais, isso não se deve a nenhum
“primitivismo” (pois fica bem clara a habilidade
técnica e a evidente compreensão das formas
naturais). Era antes, conseqüência direta
da função essencialmente intelectual que
a arte desempenhava. Toda figura era mostrada do ângulo
em que pudesse ser mais facilmente identificada, conforme
uma escala que se baseava na hierarquia, sendo o tamanho
dependente da posição social. Daí
resultava um aspecto muitíssimo padronizado,
esquemático e quase diagramático. A absoluta
preocupação com a precisão e a
representação “completa” aplicava-se
a todos os temas; assim, a cabeça humana é
sempre reproduzida de perfil, mas os olhos são
sempre mostrados de frente. Por essa razão, não
há perspectiva nas pinturas egípcias –
tudo é bidimensional.
O Estilo e a Composição
Na maior parte, os murais egípcios, como na
“Cena de caça a aves selvagens”,
que está na tumba de um nobre em Tebas, eram
criados com a técnica do “falso afresco”
(que os italianos denominaram fresco secco). Nesse método,
a têmpera é aplicada à argamassa
já seca, ao contrário do que acontece
na verdadeira pintura a freco (o buon freco), que é
feita sobre a massa úmida. A vida selvagem nos
brejos de papiros e o gato de caça de Nebamun
são mostrados com muita minúcia, mas a
cena é idealizada.

O nobre está de pé em seu barco, segurando
na mão direita três aves que acabou de
abater e na esquerda uma espécie de bumerangue.
É acompanhado pela esposa, que segura um buquê
e usa um traje complexo, com um cone perfumado na cabeça.
Entre as pernas de Nebamun, acocora-se sua filha, a
pequena figura que apanha na água uma flor de
lótus (a composição é um
exemplo de como se convencionava determinar as dimensões
das figuras conforme a hierarquia familiar e social).
Na origem, essa pintura era parte de uma obra maior,
que também incluía uma cena de pesca.
As Regras Egípcias de Representação
Na arte egípcia, a representação
por inteiro da figura humana organizava-se segundo a
chamada “regra de proporção”,
um rígido quadriculado, com dezoito unidades
de igual tamanho, que garantia a repetição
acurada da forma ideal egípcia em quaisquer escalas
e posições. Era um sistema a prova de
erro, que estabelecia as distâncias exatas entre
as partes do corpo. O sistema até especificava
o comprimento exato das passadas nas figuras de caminhantes
e a distância entre os pés (ambos mostrados
da face interna) nas figuras que estivessem a pé
e imóveis. Os artistas desenhavam o quadriculado
na superfície de trabalho e então ajustavam
ali dentro a figura que pretendiam representar. Uma
prancheta de desenho da XVIII Dinastia mostra o faraó
Tutmés III num quadriculado desse tipo.
Os egípcios não adornavam apenas tumbas:
eles também pintavam esculturas. Acredita-se
que essa bela escultura de calcário, a “Cabeça
de Nefertite”, esposa do faraó Akhenaton,
tenha sido uma cópia de ateliê, pois a
encontraram entre as ruínas da oficina de um
escultor.

Ela é tão comovente quanto uma cabeça
de Botticelli, com a mesma melancolia tocante e delicada.
Demonstra um afrouxamento das rígidas convenções
que regiam a arte egípcia anterior (e que regeriam
a posterior), pois Akhenaton rompeu com o estilo tradicional.
Em seu reinado, os entalhes, esculturas e pinturas foram
alentadoramente graciosos e originais.
Culturas Egéias da Idade do Bronze
A civilização minóica (300-1100
a.C.), uma cultura da Idade do Bronze que recebeu esse
nome por causa do mítico rei Mino, foi a primeira
a surgir na Europa. Tinha por base a pequena ilha de
Creta, no mar Egeu, entre a Grécia e a Turquia,
e desenvolveu-se mais ou menos em paralelo à
civilização do Egito, seu vizinho africano.
Mas, apesar de tal proximidade e de certas influências
em comum, a cultura egípcia e a minóica
permaneceram bastante separadas. A minóica viria
a ter enorme influência na arte da Grécia
antiga. Cultural e geograficamente, Creta era o centro
do mundo egeu. Também em paralelo com a civilização
minóica, estava a das Cidades, um grupo de ilhas
no Egeu. Dessa sociedade recuperaram-se ídolos,
objetos cujas formas antigas, quase neolíticas,
reduzem-se à mais simples abstração,
mas ainda retêm o poder mágico do fetiche.

Aqui temos um estranho antecessor da arte abstrata
de nosso século, na qual o corpo humano é
visto em termos geométricos, com uma imensa força
em bruto, contida e controlada pela força linear.
Na origem, os olhos, bocas e outros traços dos
ídolos eram pintados.