"O MUNDO ANTIGO"
A Arte Minóica e a Micênica
Em grande parte, a arte minóica é representada
por entalhes e por cerâmica pintada; só
em 1500 a.C., durante o grande “período
do Palácio”, começamos a encontrar
pinturas, e destas, em geral, restaram apenas fragmentos.
Embora certo grau de estilização egípcia
se evidencie, por exemplo, no modo com que se repetem
esquematicamente as figuras humanas, a representação
minóica exibe um naturalismo e uma elasticidade
bastante ausentes na arte egípcia. Os minóicos
encontravam inspiração na natureza, e
sua arte caracteriza-se por espantoso grau de realismo.
Eram uma civilização marítima,
e as pinturas revelavam conhecimento do oceano e das
criaturas marítimas, como os golfinhos, por exemplo.

Esse animado exemplo é do palácio de
Cnosso, que foi escavado nas duas primeiras décadas
do século XX. Outro tema recorrente é
o salto sobre touros, um ritual que se acredita estivesse
ligado a religião. Outra obra do palácio
real de Cnosso, o “Afresco do toureador”,
é uma das mais bem conservadas pinturas minóicas,
ainda que fragmentária. Os fragmentos reunidos,
revelaram três acrobatas, sendo duas moças
de pele clara e um homem de pele mais escura, o qual
salta sobre um magnífico touro. Na interpretação
mais comum, essa pintura representaria uma seqüência
de movimentos: a moça da esquerda segura os chifres
do touro na preparação para o salto; o
homem encontra-se a meio salto; a moça da direita
já está no chão e apruma-se esticando
os braços, tal como uma ginasta moderna.

A civilização micênica era uma
cultura da Idade do Bronze e desenvolveu-se na Grécia
continental. Veio a suceder a antiga minóica
em Creta, surgindo por volta de 1400 a.C. para tornar-se
a cultura dominante na ilha. A história e as
lendas da civilização micênica constituem
o pano de fundo para narrativas de Homero (c. 750 a.C.)
cujos poemas épicos, a Ilíada e a Odisséia,
refletem a chamada “era heróica”:
o fim do período micênico. Uma das mais
duradouras imagens da arte micênica é essa
mascara funerária, que durante certa época,
imaginou-se ser a do rei micênico Agamenon, o
qual, nas lendas homéricas, liderou os gregos
nas guerras de Tróia. Sabemos apenas que se trata
de uma máscara funerária e que foi tirada
de um dos túmulos régios do período
micênico, no século XVI a.C.

Além de certo amor ao ouro, a máscara
revela a imensa dignidade da imagem micênica do
homem. Essa obra muitíssimo expressiva é
uma grande descrição icônica do
que significa ser um ser humano.
Fragmentos de pinturas micênicas encontradas em
dois sítios arqueológicos (Tirinta e Pilo)
na Grécia representam o que devem ter sido impressionantes
ciclos murais. Muitos dos murais minóicos e micênicos
não eram afrescos no sentido habitual da palavra,
pois assim como para os egípcios, foram criados
aplicando-se a têmpera à massa seca. Entre
os temas dos murais micênicos, incluíam-se
não só as cenas do cotidiano, mas também
descrições do mundo natural. Se comparada
à arte minóica, a micênica era bastante
solene. Essas duas tradições formavam
o pano de fundo do qual emergiria a arte grega posterior.
A civilização micênica entrou em
colapso por volta de 1100 a.C. Seu fim marcou o término
da Idade do Bronze na Grécia. Seguiu-se um período
de uns 100 ou 150 anos, conhecido como “Idade
das Trevas”, e sabemos menos sobre a cultura egéia
nessa fase. Depois disso, findou-se a pré-história
e começou a história escrita. Aproximadamente
em 650 a.C., a Grécia arcaica emergiu como a
civilização mais avançada na Europa.
A nova visão da Grécia
Da mesma forma que seus antecessores cretenses, os
gregos eram muito menos preocupados com túmulos
do que os egípcios. Deixaram-nos uma série
de estatuetas de bronze, que são tidas em alta
conta. Mas a pintura dos gregos (uma arte em que seus
escritores nos asseguram terem sido eles muitíssimo
capazes) perdeu-se quase por completo. Uma das razões
para isso está em que, diferentemente dos egípcios,
minóicos e micênicos, que pintavam apenas
murais, os gregos pintavam sobretudo em painéis
de madeira, que não resistiram ao tempo.
O erudito romano Plínio, o Velho (23/24-79 d.C.),
cujas detalhadas descrições do mundo antigo
influenciaram muitas gerações seguintes,
é a maior fonte de informações
sobre a pintura grega. Em todas as outras escolas artísticas,
a veracidade de tais descrições pode ser
avaliada pelas pinturas que chegaram até nós.
Isso não vale para a grega, e, portanto, jamais
se poderá determinar o valor do que Plínio
escreveu.
Nossa única pista da beleza da pintura grega
está quase toda na decoração de
vasos, uma arte relativamente menor e essencialmente
utilitária. A palavra “vaso” (que
começou a ser usada no século XVIII como
termo amplo para designar a cerâmica grega) talvez
crie equívocos. Ao contrário do que pode
acontecer hoje em dia, os gregos nunca faziam vasos
apenas com fins decorativos; sempre tinham em mente
um propósito específico. Seus ceramistas
produziam uma ampla gama de produtos, em diversos formatos,
tais como jarras de armazenagem, garrafas de perfume
e ungüento e recipientes de líquidos usados
em rituais.
Nas pinturas gregas de vasos percebemos a preocupação
com a anatomia, pois a figura humana tornou-se o principal
tema da arte e da filosofia gregas. Vemos um afastamento
em relação ao que mostravam as pinturas
dos túmulos egípcios, com aquelas fórmulas
pré-concebidas para representação
do mundo. Surge toda uma nova maneira de ver a arte,
em relação ao que o olho enxerga e a mente
dispõe.
Estilos na Pintura Grega de Vasos
Se a pintura de vasos é mesmo uma arte menor,
ela contava então com alguns grandes praticantes.
O ateniense Exécia (Exekias), que viveu por volta
de 535 a.C., assinou como pintor pelo menos duas peças
cerâmicas em que aparecem figuras negras, e o
estilo do artista, com sua poesia e perfeito equilíbrio,
é reconhecível de imediato. Vale observar
que Exécia produzia não apenas as pinturas,
mas também as cerâmicas. Sua obra é
importante porque revela a direção que
a arte figurativa tomaria, indicando o salto desde uma
reprodução simbólica “hieroglífica”
dos objetos no mundo até uma representação
que procurava mostrar o mundo tal como ele realmente
se apresenta. Isso fica muito evidente no tratamento
dado à vela da embarcação nesse
soberbo cúlice (ou kylix, uma taça rasa
de duas alças), Dionísio em seu barco.

Dionísio, o deus do vinho, da vegetação
e da fertilidade, jaz em repouso enquanto leva à
humanidade o segredo do vinho. Vinhas simbólicas
enrolam-se no mastro e elevam-se frutuosamente para
o céu, em maravilhosa adaptação
à difícil composição circular
do cúlice. O barco com a vela fulgurante, desliza
majestoso sobre o mundo rosa e laranja do Céu
e da Terra, e golfinhos brincam ao redor da presença
sagrada. A cena vibra com surpreendente senso de completude.
A pintura grega de vasos está, caracteristicamente,
preocupada em contar histórias, e muitos vasos
trazem imagens de episódios relatados por Homero
na Ilíada e na Odisséia, obras escritas
no século VIII a.C. Vasos ornados com narrativas
datam de tempos anteriores a Homero, chegam ao período
clássico grego (que sucedeu o período
arcaico por volta de 480 a.C.) e alcançam até
épocas bem posteriores.
A menos que vejamos imagem e vaso como um todo, não
podemos apreciar por completo a pintura cerâmica
grega.
Uma figura chave na Odisséia, Palas Atena, a
deusa protetora da cidade de Atenas, aparece numa ânfora
confeccionada cerca de 480 a.C. pelo artista anônimo
que os estudiosos denominaram Pintor de Berlim.

A curva negra e brilhante da ânfora cria a impressão
de que a deusa afasta-se de nosso olhar, ao mesmo tempo
que nos possibilita vislumbrá-la em sua solene
doçura. Palas Atena estende uma jarra de vinho
para Heracles, que está na outra face da ânfora;
ambas as figuras mantêm intacta sua própria
privacidade, mas ainda assim se comunicam. É
uma obra maravilhosamente reverenciada e contida, tão
simples quanto complexa.
Essa ânfora é um exemplo da técnica
das figuras vermelhas, que foi inventada por volta de
530 a.C. e sucedeu a cerâmica das figuras negras.
Na técnica das figuras vermelhas, as figuras
não recebiam pigmento; o fundo negro é
que era pintado em torno delas, deixando que o vermelho
da cerâmica fizesse as vezes das figuras, as quais
tinham então pintados seus detalhes anatômicos,
e as cenas descritas nos vasos foram ficando cada vez
mais complexas e ambiciosas. Um bom exemplo dessa inovação
é a pintura no interior de uma tigela de beber
fabricada na olaria do ceramista Brigo (Brygos); o artista
desconhecido que a pintou é conhecido simplesmente
como Pintor de Brigo.

Embora o tema (a mulher que segura a cabeça
de um jovem bêbado enquanto ele vomita) não
seja atraente, as figuras são representadas com
dignidade e finura. Em especial, as roupas dão
à mulher uma graça terna.