ARTE MODERNA
Sob essa denominação podem ser considerados,
generalizadamente, os diversos movimentos artísticos
que se originaram no decurso do século XX.
A denominação “Arte Moderna”.
Muito embora internacionalmente aceita, e por isso aqui
adotada, a expressão “arte moderna”
merece reparos: (1) não existe uma arte moderna
em oposição a uma arte antiga e nitidamente
separada dela: pelo contrário, toda arte é
moderna, no sentido de que acompanha (e não raro
ultrapassa) o espírito da época em que
surge. Assim, Giotto é moderno em relação
a Cimabue, e Masaccio em relação a Giotto;
(2) arte moderna pode ser a denominação
adequada para a arte correspondente à Era Moderna,
iniciada, como é sabido, em 1453: Renascença,
Maneirismo, Barroco, Rococó, Neoclassicismo,
Romantismo, Impressionismo e os diversos movimentos
artísticos que se seguiram ao Impressionismo
não passariam, assim, de subdivisões da
arte moderna, que desta arte compreenderia cinco séculos:
XVI ao atual.
Precursores da Arte Moderna. Cézanne, Gauguin
e Van Gogh são considerados os três grandes
precursores da Pintura moderna, prendendo-se a contribuição
original do primeiro ao espaço, do segundo à
composição e do terceiro à cor.
Paul Cézanne pode ser considerado como precursor
conjuntamente do Expressionismo (“Tentação
de Santo Antonio”, de 1867), do Fauvismo e sobretudo
do Cubismo (“Jogadores de Cartas”). Num
inquérito levado a efeito em 1953, Braque, Jacques
Villon, Léger e diversos outros pintores reconheceram
sua dívida para com o pintor de Aix-em-Provence,
afirmando peremptoriamente: “Todos partimos da
obra de Cézanne.”
Paul Gauguin influenciou também os fauves, e
foi o primeiro a chamar a atenção, no
Ocidente, para a arte primitiva e para a arcaica. Sua
contribuição maior à arte do século
XX reside no fato de ter sido ele o precursor dos pintores
não figurativos, pela rejeição
deliberada do modelado, dos valores, da perspectiva
linear, etc.
Vincent van Gogh, afinal, influenciou, com seu colorido,
os fauves e, com a carga emotiva de sua arte, os expressionistas.
Fauvismo. O Fauvismo (fauve=fera, em francês)
foi a primeira revolução artística
do século XX, e se manifestou de 1905 a 1907.
A rigor, não chega a constituir uma escola, sendo
antes um grupo de pintores com idéias afins.
Tal grupo expôs, pela primeira vez, em 1906, no
Salão dos Indenpendentes. Liderava-o Matisse,
sem dúvida o representante mais notável
da tendência.
Foi o crítico Vauxcelles quem deu nome ao movimento,
ao dizer de uma escultura neoclásssica de Marque,
rodeada de telas de cores violentas, dos companheiros
de Matisse, que parecia “Donatello entre feras”.
A nova denominação substituiu as anteriores:
pintura incoerente e pintura invertebrada.
Os pintores fauves pertenceram a três sub-grupos:
o do atelier de Gustave Moreau e da Academia Carrière
(Marquet, Manguin, Camoin), o Chatou (Dérain,
Vlaminck) e o do Havre (Friesz, Dufy, Braque). Kees
van Dongen, que aderiu ao Fauvismo, manteve-se independente.
Tecnicamente, caracteriza-se pela equivalência
da luz e pela construção do espaço
com o auxilio exclusivo da cor; pela abolição
do modelado e do jogo de luzes e sombras; pela simplificação
dos meios expressivos até ao mínimo necessário;
enfim, pela correspondência entre o elemento expressivo
e o decorativo, com o apoio da composição.
Cubismo. Coube ainda a Louis Vauxcelles batizar o Cubismo,
ao dizer da pintura de Braque – ao que parece
retomando um dito de Matisse - que não passava
de “bizarrices cúbicas” (1908). O
Cubismo durou de 1908 a 1914, e não tinham seus
adeptos grandes preocupações teóricas
(Picasso: “Quando fizemos o Cubismo, não
tínhamos qualquer intenção de fazê-lo,
mas sim de exprimir o que estava em nós”).
Historicamente é possível distinguir
entre Cubismo cézanniano (1907-1909), analítico
(até 1912) e sintético (até 1914).
A primeira etapa começa com grandes retrospectivas
de Seurat e sobretudo Cézanne em Paris, ao mesmo
tempo em que a Escultura africana aparece em cena.
De 1907 é “As Donzelas de Avignon”,
de Picasso, considerada a primeira obra cubista. Em
1908 forma-se o grupo do Bateau-Lavoir, ao qual pertencem
Apollinaire – autor de Pintores Cubistas e teórico
máximo do movimento – Salmon, os Stein,
etc. Os principais nomes a realçar nessa fase
são os de Picasso e Braque.
A fase analítica – denominação
devida a Juan Gris – caracteriza-se pela decomposição
crescente da forma: passa-se a dar, de um mesmo objeto,
uma série de aspectos diferentes, retratando-se
esse objeto não como é visto, mas como
se sabe que é. O Cubismo analítico é,
sob certos ângulos, a última conseqüência
da Pintura representativa.
Quanto ao Cubismo sintético, teve em Gris e
em Léger seus principais adeptos. Signos plásticos
tomam o lugar do processo imitativo, do qual começa
a emancipar-se rapidamente a Pintura. “De um cilindro
faço uma garrafa”, afirmou certa vez Juan
Gris, numa frase que bem traduz a essência do
Cubismo sintético, e que se opõe àquela
outrora pronunciada por Cézanne: “Tratar
a natureza por meio do cilindro, da esfera, do cone...”
A guerra de 1914 pôs fim ao período criador
do Cubismo, ao mesmo tempo em que, simbolicamente, sacrificava
Guillaume Apollinaire, o grande exegeta do movimento.
Futurismo. Surgiu em 1909, com o Manifesto Futurista
publicado no Le Figaro, e de autoria do poeta italiano
Marinetti. Os principais componentes do grupo foram
Carrà, Boccioni, Russolo, Balla e Severini. Estende-se
a fase áurea do movimento até 1918 e se
prolonga até bem mais tarde, se bem que já
sem a vitalidade inicial, na obra dos pintores como
Rosai, Sironi, Prampolini.
Tecnicamente o Futurismo pode ser definido como uma
tentativa de adicionar o elemento dinâmico ao
Cubismo, essencialmente estático. Sua grande
contribuição à arte moderna consiste
em ter despertado, com sua irreverência e rebeldia,
aquilo a que se denominou de espírito moderno,
e que iria fecundar de então por diante toda
a arte do século XX.
Expressionismo. O Expressionismo não é
um movimento, mas uma constante da arte, manifestando-se
de preferência em épocas de crises. O ódio
racial e o genocídio, duas conflagrações
mundiais e toda espécie de desajustamentos sociais,
culminando com o estabelecimento das grandes ditaduras
européias, explicam decerto a extraordinária
vitalidade do Expressionismo, no século atual.
Entre os precursores do moderno Expressionismo estão
Van Gogh, Lautrec, Ensor, Munch e Hodler. A tendência
surgiu por volta de 1910, conjuntamente em Munique e
em Berlim, quando o grupo Cavaleiro Azul recebeu em
seu seio quase todos os ex-componentes do grupo A Ponte,
o qual foi, a seu turno, uma espécie de réplica
germânica do Fauvismo. Dentro do Expressionismo
formaram-se inúmeros subgrupos, como os já
citados A Ponte (diretamente inspirado de Van Gogh,
da Arte Negra e do Fauvismo) e do Cavaleiro Azul (de
tendência abstrata), e como a Nova Objetividade,
que quase pode ser definida como um figurativismo beirando
a caricatura, e eivado de sátira feroz.
O Expressionismo – que o crítico Langui
acertadamente definiu como uma mistura da melancolia
nórdica com o misticismo eslavo, a rusticidade
flamenga, a angustia judaica e todasorte de obsessão
germânica – espraiou-se da Alemanha para
toda a Europa, e para a América, contando entre
seus adeptos Rohlfs, Modersohn-Beker, Barlach, Hofer,
Kokoschka, Kandinski, Feininger, Klee, Jawlensky, Dix,
Kollwitz, Grosz, etc., nos países germânicos;
Rouault e Grommaire, em França; De Smet, Van
den Berghe e Permeke, na Bélgica; Sluyters, na
Holanda; Solana, na Espanha; Soutine na Lituânia;
Bem Shahn e De Kooning, nos E.U.A.; Rivera, Orozco,
Tamayo e Siqueiros, no México; Portinari e Segall,
no Brasil.
O Expressionismo reagiu contra o impressionismo e o
Naturalismo, opondo-se à afirmativa de Zola,
segundo a qual a arte seria “a natureza vista
através de um temperamento”. Para os expressionistas,
o temperamento deve sobrepujar a natureza. A linha no
desenho de índole expressionista, adquire valor
fundamental, ao mesmo tempo em que as cores simples,
elementares, passam a substituir os tons e nuances impressionistas.
A própria cor adquire valor de símbolo,
como queria Van Gogh – o Van Gogh que escreveu
ter procurado, com emprego do vermelho e do verde, “exprimir
as terríveis paixões humanas”...
Construtivismo. Surgiu na Rússia por volta de
1913, com Tatlin, Gabo, Pevsner, El Lissitzky. Reagia
contra os excessos do Cubismo e do Expressionismo. Os
construtivistas retornaram ao cilindro, à esfera
e ao cone cézannianos, restringindo-se ao uso
das cores primárias. Foram os primeiros a trazer
para a arte moderna a paixão pela máquina
e pelo produto oriundo da técnica.
Movimento afim ao construtivista surgiu na Holanda,
em 1917: o encabeçado pela equipe da revista
O Estilo (Van Doesburg, Vantongerloo, sobretudo, Piet
Mondrian). De O Estilo surgiria o Neoplasticismo de
Mondrian (1920), cuja influência seria muito grande,
gerando inclusive, no Brasil, os movimentos concreto
e neoconcreto, ambos de fins da década de 1950.
Suprematismo. Nascido do Construtivismo, é dele
diferenciável por uma ainda maior austeridade.
Malevitch foi o seu criador, em 1913. O Suprematismo
é o limite extremo a que chegou a Pintura de
índole não-representativa.
Arte Metafísica. Desenvolveu-se entre 1910 e
1917, graças a De Chirico, Carrà, Morandi
e Severini. Trata-se de um estilo fantástico,
no qual vistas de cidades, paisagens desoladas, estranhas
naturezas mortas e figuras compósitas são
tratadas como se não pertencessem ao mundo físico.
Desde Bosh e Arcimboldo, não atingia a arte ocidental
a tão elevado grau de abstração
e fantasia.
Dadá. O movimento dadaísta irrompeu ao
mesmo tempo na França, com André Breton,
Eluard, Soupault; na Suíça, com Tristan
Tzara e Arp; nos E.U.A., com Marcel Duchamp; na Alemanha,
com Schwitters. Inspiravam-no os escritos de Lautréamont
e as colagens de Picasso, bem como a arte metafísica
de De Chirico. Estilo de após-guerra, afirmava
como essência e finalidade de tudo, da arte inclusive,
o absurdo. Até 1922 caracterizou-o um feroz niilismo;
de então por diante (e esse seu título
maior) preparou o caminho para o Surrealismo, com o
qual terminaria por se confundir.
Surrealismo. A arte metafísica, o Dadaísmo
e os escritos de Freud originaram o Surrealismo, já
anunciado por artistas como Bosh, Baldung Grien, Arcimboldo,
Goya, Füssli, etc. O Surrealismo não busca
a destruição da cultura, como o Dadaísmo:
pelo contrário, coloca-se numa posição
construtivista. As bases do movimento estão no
Manifesto de 1924, redigido pelo poeta André
Breton, para quem o Surrealismo se resume “no
automatismo psíquico puro, pelo qual se procura
exprimir, seja de que maneira for, o funcionamento real
da mente humana”.
Os principais surrealistas são Dalí,
Ernst, Arp, Klee, Miro, Tanguy, Magritte, e mais recentemente
Dubuffet, Matta e Lam.
Pintura “Ingênua”. Os cubistas descobriram
em 1905 a pintura de Henri Rousseau. Assim começou
a valorização da pintura “ingênua”,
às vezes chamada (erroneamente) “primitiva”.
O pintor ingênuo não teve aprendizagem
acadêmica, produzindo por absoluta necessidade
de expressão. Julga-se intimamente um realista,
e tem em mira copiar com a maior fidelidade a natureza
– adicionando, porém, à cópia,
certo elemento poético, que lhe é inato.
O colorido, o mais das vezes, é livre; o desenho,
econômico.
Além de Rousseau, celebrizaram-se especialmente
os “ingênuos” Séraphine (1864-1934),
Vivin (1861-1936), Bombois (n. 1883), Bauchant (1873-1958).
Realismo Social. Para os teóricos do realismo
social, a arte se destina ao proletariado, devendo ser
rejeitada como falsa a que ultrapasse o seu entendimento.
O fim da arte seria então “ajudar o proletariado
a atingir os seus destinos”. Essa teoria artística,
adotada oficialmente pela U.R.S.S., conquistou adeptos
em vários países, logo após a última
guerra e, a despeito de contar entre os seus fiéis
com artistas da categoria de Rivera, Orozco, Tamayo,
Siqueiros, quase descambou para um frio academicismo.
Tendências Abstratas. O movimento contra o Naturalismo
atingiu no século atual seu ponto máximo.
Datam as primeiras obras não-figurativas, como
ficou dito, de antes de 1914. Mas após 1945 é
que o Abstracionismo veio a ser introduzido em quase
todos os países. Com a diferença de que,
antes de 1914, a arte abstrata era intelectualmente
disciplinada, apegando-se à forma geométrica,
à ordem, à harmonia; ora, após
1945, o que se viu foi a vitória de um abstracionismo
não mais baseado na razão, mas na intuição.
Abstracionismo a que se chamou de Expressionismo Abstrato,
e que se divide em quase tantos estilos quantos são
os pintores que o praticam. A influência dos ideogramas
orientais fez-se sentir mais recentemente sobre os tachistas
(do francês tache, mancha), liderados por Wols
e Fautrier, e sobre os adeptos da Action Painting, ou
pintura do gesto, capitaneados por Pollock, Kline, Tobey,
etc.
Os Independentes. À margem de tendências
e de movimentos, a arte moderna presenciou o aparecimento
de pintores independentes,que sofreram, é certo,
a influência dessa ou daquela estética,
mas sem se apegarem nunca a nenhuma em caráter
definitivo. Os principais entre tais artistas são
Utrillo e Modigliani, Soutine e Kokoschka, Chagall e
Rouault – em verdade, alguns dos mais notáveis
artistas do século.
A Arte Moderna no Brasil. A primeira exposição
de arte moderna no Brasil foi a efetuada em 1913 por
Lasar Segall em São Paulo. Despertou maiores
reações a de Anita Malfatti, realizada
ainda em São Paulo, em 1916. Sempre em São
Paulo, realizou-se em 1922 a Semana da Arte Moderna,
de que participaram Di Cavalcanti, Brecheret e Goeldi.
A Semana teve a vantagem de tornar nacional um movimento
até então puramente local.
No Brasil repercutiram fracamente movimentos como Cubismo
(que influiu, porém, sobre o Pau-Brasil, de 1926,
e o antropofagista, de 1928, de Tarsila do Amaral),
o Futurismo, a Arte Metafísica, o Surrealismo.
Um construtivismo retardado originou-se no Rio de Janeiro
e em São Paulo sob a denominação
de Concretismo, logo seguido pelo Neoconcretismo, na
década de 1950. Quanto ao Expressionismo, tem
em Segall e em Portinari seus principais seguidores,
e no setor da gravura gerou um mestre como Goeldi, falecido
em 1961. Os principais “ingênuos”
nacionais são, no Rio de Janeiro, Heitor dos
Prazeres, em São Paulo, José Antônio
da Silva. Logo após a II Guerra Mundial, o Realismo
Social fez seu aparecimento, com artistas como Scliar
e Glauco Rodrigues, que depois iriam conduzir suas pesquisas
em outros sentidos. Com Antônio Bandeira, Milton
Dacosta e outros, instalou-se, por volta de 1947, o
Abstracionismo, hoje generalizado. Quanto a independentes,
possui o Brasil em Pancetti, Guignard, Djanira e Iberê
Camargo seus mais notáveis representantes.
Outras datas notáveis da arte moderna no Brasil:
1935, Portinari é premiado em Pittsburgh com
o quadro “Café”, 1958, criação
do Museu de Arte Moderna do Rio; 1951, Primeira Bienal
de São Paulo e criação do Salão
Nacional de Arte Moderna.