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Título: DEFICIENTES VISUAIS FAZENDO ARTE

Por Di Bonetti

“A vida tem cor e relevo. É como a pincelada que toca o infinito.”
Cristina Portella - artista plástica.


Clovis e Laércio são deficientes visuais
Patricia Bigarelli a esquerda e sua assistente



A ABC - ASSOCIAÇÃO DE BALÉ DE CEGOS FERNANDA BIANCHINI, existia há 09 anos, tendo iniciado suas atividades no “Instituto de Cegos Padre Chico” e esse trabalho, bem como seu método pioneiro no mundo foi desenvolvido voluntariamente pela bailarina e fisioterapeuta Fernanda Bianchini.
Com a dedicação da professora e o empenho dos alunos, o grupo foi quebrando paradigmas, superando barreiras e transformando o que era impossível, em pura arte.
No final de 2003, segundo Fernanda, o Instituto de Cegos Padre Chico decidiu terminar com a atividade do grupo em suas instalações.
Para que o trabalho continuasse, pais, amigos e colaboradores resolveram montar uma associação.
Com o nome de Associação de Balé de Cegos Fernanda Bianchini, localizada na Vila Mariana em São Paulo, o grupo iniciou uma nova fase, com objetivos mais amplos, oferecendo novos cursos, não só o ballet clássico, como também, sapateado, dança de salão, capoeira, danças folclóricas, teatro, violão e ARTES PLÁSTICAS, esta última englobando pintura e escultura. Todos os cursos são gratuitos.
Todas essas atividades melhoram o equilíbrio e a auto-estima, dos deficientes visuais, rompendo com barreiras e preconceitos externos e internos.

No mês de novembro de 2004, nós do PORTAL ARTES, conhecemos um trabalho voltado às artes plásticas, maravilhoso. E nos motivamos a realizar esta entrevista.
Nossa intenção é proporcionarmos aos nossos visitantes, um pouquinho mais de conhecimento sobre o mundo dos deficientes visuais; nas suas rotinas diárias, as quais podem perceber, no decorrer desta entrevista, que, muitas vezes eles são mais ativos e tem uma visão melhor do que muitos de nós, que não queremos enxergar o mundo que está ao nosso redor, negando assim, o respeito a diversidade e as verdadeiras possibilidades humanas.
“Enxergamos o mundo com olhos muitas vezes nebulosos, negamos as verdadeiras possibilidades daqueles que excluímos socialmente com um simples ato de não olharmos para aquele que está ao nosso lado”.




Conhecemos a Associação de Jovens Voluntários - Projeto Social para Deficientes Visuais – que faz parte da Associação de Balé de Cegos Fernanda Bianchini.
Por ocasião da Exposição - Referencial Anita Malfatti, realizada em Janeiro de 2004, no Centro Cultural da CAIXA, na Praça da Sé em São Paulo, sob minha curadoria, tive contato mais próximo com um grupo de aproximadamente 10 deficientes visuais, os quais organizaram-se e marcaram uma visita monitorada para conhecer as obras desta artista que é um ícone da pintura brasileira - a mãe do modernismo.
Participamos desse processo, e para quem é leigo sobre o assunto “Deficiência Visual” - que a sociedade está se acostumando a não mais chamar de cegos - a pergunta vem automaticamente:
- O que um grupo de deficientes visuais faz reunido em frente a obras que não podem ser tocadas?
- E se eles não enxergam, como podem saber, por exemplo, que o céu é azul, ou a mata é verde?
Segundo informações das associações de deficientes visuais, 90% dos deficientes perderam a visão no decorrer da vida, não nasceram sem visão. Então eles têm uma memória das cores e das formas.
Podemos dizer que presenciar tal fato, só nos leva a quebrar determinados preconceitos, pois, o fato de exercerem sua cidadania ao visitar uma exposição, os fez mentalmente enxergar cada detalhe que lhes foi transmitido pelo monitor sobre a obra e vida da artista tão polemizada na década de 20. Não foi necessário o toque para entender essa leitura.
A Pinacoteca de São Paulo possui uma equipe de monitores preparados para receber deficientes visuais, em visitas agendadas, e Amanda Tojal é a responsável por essa área de ação educativa, que inclui material didático interativo e a possibilidade de tocar e sentir algumas obras em toda sua essência.
Esculturas em bronze, que não são deterioradas com o passar do tempo, podem ser tocadas e até mesmo algumas pinturas famosas foram copiadas através de processo específico e transformadas em relevo, numa prancheta de resina acrílica, onde o deficiente faz a leitura com o toque dos elementos que compõe uma determinada pintura.
Em São Paulo existem inúmeras associações de deficientes visuais, que auxiliam não só o deficiente a interagir na sociedade, mas, também, as pessoas que não possuem “essa deficiência”, saberem como agir quando se deparam com um deficiente visual.
Vários fatos engraçados nos foram relatados durante nossa entrevista à Associação, como nos conta um dos alunos.
- Às vezes ao atravessar uma rua movimentada, as pessoas querem ajudar e acabam atrapalhando, pois, não sabem como agir. O correto seria chegar perto e perguntar: - Quer ajuda? O deficiente irá dizer como conduzi-lo. Isso contado por um deficiente, rindo muito. Sou cego e não surdo! Diz isso com um bom humor saudável.

Entrevistamos também Patrícia Bigarelli, que é artista plástica voluntária na “Associação para Cegos Fernanda Bianchini,” e que ministra o curso de Artes Plásticas Vibracional para Deficientes Visuais, auxiliada por uma assistente.
Seus sete anos de estudos na Itália lhe proporcionaram não somente uma lição de vida e experiência, mas uma grande bagagem intelectual, que influenciou sem dúvida sua cultura e enriqueceu seus conceitos filosóficos.
Duas experiências pontuaram a vida profissional dessa artista plástica que apesar de jovem, possui um currículo admirável!
Em 2000, trabalhou como orientadora no “Centro de Arte Contemporânea Luigi Pecci,” na cidade de Prato, na Itália, onde a proposta interativa do projeto elaborava experiências psicofísicas, com cores para doentes mentais, cujo título do curso era arte-terapia. Em seguida, no “Instituto dei Ciechi,” (Instituto dos Cegos), também na Itália em Florença, participou das práticas de vibrações das cores, conceitos baseados na cromoterapia. Experiências enriquecedoras que lhe proporcionaram conhecimento e uma gama de material para sua pesquisa com as cores, como tese final (para FACULDADE).
Desenvolveu estudos ligados aos valores sinestésicos da pintura e sentidos sensoriais, isto é, múltiplas sensações.
Hoje, Patrícia Bigarelli, é uma colaboradora importante para as artes plásticas, dentro da “Associação para Cegos Fernanda Bianchini”, pois, esse é um projeto de inclusão social para deficientes visuais que desenvolve trabalhos e atividades, desmistificando a incapacidade de fazer arte por não enxergar.
Os exercícios são baseados em conceitos da cromoterapia, proporcionando um desenvolvimento de uma habilidade profunda de percepção que servirá para seu próprio universo, sensível do tato.
Os alunos desenvolvem trabalhos com as cores, criam desenhos, manipulam massas e argilas, fazem meditações, diálogos terapêuticos e visitas organizadas por Patrícia, em museus que contam com equipe de monitoria preparada para receber públicos especiais.
O PORTAL ARTES, realizou esta entrevista, num dia de aula de artes plásticas e os depoimentos dos alunos Clovis e Laércio são entusiastas.
Por ocasião dos exercícios propostos por Patrícia, ao desenvolvê-los, Laércio, tinha como inspiração o livro de poesias de sua autoria – Sonhos Navegantes, escrito em 1992. Ao lembrar de determinada poesia que descrevia o mar, tentava inserir os pigmentos na tela buscando expressar os mesmos sentimentos de prazer que teve ao escrever.
- “A sensação era uma relação forte de jorrar emoção igual à poesia”, nos relata Laércio.


Clóvis era office-boy e teve petinose pigmentar, enxergava tudo preto e branco. Foi perdendo a visão aos poucos e muitas vezes, fazendo trabalhos externos, o calor era intenso e quando a chuva caia, ele se molhava todo. Chegando ao escritório, o chefe perguntava se ele não estava bravo por estar todo molhado. Ele dizia que não.
O que ninguém conseguia entender, era que sua visão já muito debilitada, fazia com que sua sensibilidade à chuva fosse multiplicada mil vezes mais.
A tranqüilidade que sentia quando seu corpo absorvia as gotas frias caídas do céu, nos dias quentes de verão, eram de extremo prazer.


Quando fazia as inserções de tintas na tela, sua maior preocupação era tentar pintar a chuva, transmitir as emoções daqueles momentos mágicos.

Os alunos se expressam através da temática das cores e o propósito fundamental não é aprender a pintar ou esculpir, mas sim, expressar-se através da arte, num contato sensorial que transforma a determinação da busca em poesia pura e o propósito em arte terapia.
Uma lição de vida a ser seguida! Pelo entusiasmo, positividade e alegria com que a grande maioria dos deficientes visuais vê a vida, e nós que não temos uma “deficiência visual”, muitas vezes, olhamos, e sem a verdadeira percepção e sensibilidade de uma visão perfeita, não enxergamos.

A “Associação para Cegos Fernanda Bianchini,” não tem fins comerciais e busca patrocínios, parcerias, apoio de empresas, ou doações para poder dar continuidade na realização desse projeto social que enriquece a interação humana, diminuindo a exclusão social, ou melhor, promove a inclusão social, com sua atuação, pois, integra os deficientes junto a comunidade nas mais diversas atividades. Um verdadeiro exercício de cidadania.
O espaço está aberto para visitas de interessados em conhecer e colaborar.

Maiores informações e contato podem ser obtidos através do endereço abaixo.

“Associação para Cegos Fernanda Bianchini”.
Rua Humberto I, n.298 – Vila Mariana – SP - CEP 04018-030.
(acesso, corredor da igreja São Bonifácio).
Fones: (011) 5575-9898 – 6864-1463 – 5084-8542
e-mail: maghome@uol.com.br
e-mail: pabigarelli@hotmail.com


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Adicionado em: 16 fevereiro 2005
Fonte/Fonte: Di Bonetti
Fonte E-Mail/Site: n/a
Postado por: Will
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