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Gilson Alcantara
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Vandalismo e neovandalismo cultural

 

A história dos monumentos culturais da humanidade é a história do vandalismo cultural.

Da destruição da biblioteca de Alexandria à destruição da floresta Atlântica brasileira, da perda de obras de Aristóteles ao deslocamento do marco zero do Recife, a lista de atos vândalos é de magnitude tal que certamente ultrapassa em muito a de realizações humanas. Cada novo império, cada novo déspota, cada novo funcionário destrói, corrompe, e – às vezes – constrói; em muitos casos, obras medíocres.

 

Quem já perambulou pelos museus do mundo desfilou perante pequenos e grandes fragmentos remanescentes deste carnaval de destruição. Mil anos de Erótica corrompidos por uma igreja em busca de genitálias decepadas. Suntuosos templos reduzidos a pó pelo vandalismo religioso. O que resta das sete maravilhas do mundo da antigüidade?

 

Por que os Aliados bombardearam Dresden, os egípcios saquearam as pirâmides, os brasileiros destroem suas florestas?

 

Movidos pelo brutal instinto de destruição, pela inveja, pela cupidez humana, monumentos, culturas, povos inteiros foram dizimados. Acompanhando as mudanças de poder e ideologias, os últimos cinco séculos viram a ascensão dos interesses econômicos definirem a face do vandalismo. Na busca de ouro, toda a América pré-colombiana foi vitimada pelas novas tecnologias de destruição. Nas disputas entre França e Inglaterra pela partilha dos monumentos que sobraram da antigüidade, a única frustração foi a da incapacidade de desmontar uma pirâmide e remontá-la no centro de Londres ou Paris. Pragmáticos, os norte-americanos erigiram seu próprio obelisco em Washington e se preocuparam mais em vandalizar a culinária mundial com a imposição psicológica do hambúrguer e milk-shake.

 

As reações vieram quase sempre associadas a um contra-vandalismo político. Quase metade dos monumentos de Paris foram saqueados ou demolidos no período da Comuna. O grafitismo, a pixação de obras expostas em vias públicas, se tornou a mais anárquica e a mais idiota manifestação do vandalismo anti-vandalismo. Os soviéticos transformaram os templos religiosos em museus e criaram o mausoléu de Lênin como novo templo de adoração. Os atuais líderes religiosos da Rússia responderam canonizando o último Czar.

 

O mais significante ato de vandalismo desta época foi o desmonte e transporte dos mármores de Elgin, figuras de adorno ao Pantheon, para o Museu Britânico. Vandalismo cometido em nome dos elevados valores da humanidade, as figuras sofreram ainda a agressão de uma restauração excessiva que destruiu detalhes preciosos de seu relevo.

 

Hoje, em nome da arte mundial, o governo da Grécia reivindica a volta das peças ao monumento original restaurado no coração de Atenas.

As autoridades do Museu Britânico argumentam que a devolução das peças abriria um precedente histórico perigoso. Imagine se todas as obras roubadas voltassem ao seu país original. Seria o fim da maioria dos grandes museus do mundo. E se as terras das Américas voltassem às mãos dos índios. Se os descendentes dos escravos recebessem indenizações pelos danos históricos causados pelo capitalismo, assim como os descendentes dos judeus vitimados pelo nazismo estão recebendo milhões do governo e empresas da Alemanha; ou como os fumantes esperam receber das empresas de cigarros. Será que uma ação de reparação histórica, a mera devolução das peças ao Pantheon, pode mesmo desencadear o fim do mundo?

 

Mas, se enquanto existir o Museu Britânico, haverá esperança entre gregos quanto à restauração completa de seu templo, o mesmo não se pode afirmar sobre aquelas obras para sempre perdidas. A destruição dos documentos sobre a escravidão no Brasil foi outro ato cometido em nome dos elevados princípios do humanismo. Em um país dividido por um canyon ideológico e social, as conquistas políticas são seguidas sempre de um porém. Acabamos com a escravidão, porém devemos esquecê-la e apagá-la das mentes das futuras gerações por ser vergonha nacional; democratizamos o pais, porém garantindo a manutenção dos privilégios das elites e o aprofundamento das desigualdades sociais.

 

Defendemos o estado de direito, salvaguardando porém alguns direitos especiais para todos da elite.

 

Defendemos a ecologia, porem salvaguardando o desenvolvimento econômico. Esta tem sido a máxima da filosofia brasileira sobre a natureza. Se os norte-americanos mataram seus índios, por que nós não? Se os ingleses destruíram suas florestas, por que nós não? Se os parisienses destruíram mais de uma vez sua cidade, se Londres ardeu em chamas por dias, por que não as nossas cidades? As dunas do Rio Grande do Norte, as florestas, a biodiversidade lentamente desaparecem para sempre, como os arquivos sobre a escravidão.

 

Nem todo ato considerado como vandalismo é, contudo, de se lamentar.

 

Sobre as ruínas do antigo castelo do Louvre construiu-se o palácio e hoje museu mais visitado do mundo. Os franceses destruíram a Paris do ancient régime e o Georges Haussmann construiu uma nova cidade, hoje tida como a mais bela. Das ruínas das antigas Tóquio e Berlim surgiram novas metropolis com novos monumentos. No planalto central do Brasil, surgiu Brasília, expressão da ideologia de que o Brasil é o pais do futuro. Contudo, a exceção à regra parece ser cada vez menor. A globalização exacerba e cria novas formas de vandalismo.

 

Se a idéia de memória histórica se opõe à idéia de vandalismo; se a história da humanidade tem sido a historia da destruição e usurpação do relato e dos monumentos do passado, a concepção neoliberal de cultura representa a combinação da manipulação histórica com um neovandalismo cínico. Igrejas que viram discotecas ou bares, monumentos privatizados e tendo sua história reescrita em louvor dos novos donos. Quando um museu exibe excremento como obra de vanguarda, a única interpretação possível é que se está diante de uma obra de protesto de uma prática de contra-vandalismo que estava fora da arte, e hoje, perante a absorção da cultura dirigida pelo mercado, é tida como a essência da arte.

 

Marcos Aurélio Guedes de Oliveira é ensaísta e professor da Universidade Federal de Pernambuco

 

 


Fonte: Revista Continente Multicultural
www.continentemulticultural.com.br

 

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