Vicente do Rego Monteiro, UM BRASILEIRO UNIVERSAL

O pintor e artista Manfredo Souzaneto relata que, durante o seu período de bolsista do governo francês em Paris em meados dos anos 1970, viu na vitrine de uma galeria um quadro a óleo de Vicente do Rego Monteiro. Era uma peça linda, da série “Os Tenistas”. Mineiramente, Manfredo entrou na galeria e perguntou pelo preço. Era barato em comparação com uma pintura nas mesmas dimensões e época, se vendida no Brasil. Ele pediu ao marchand que aguardasse dois dias para comprá-lo. O pintor tentou contato com seus amigos do Rio de Janeiro, mas não conseguiu convencer ninguém a lhe enviar o dinheiro. Bolsista, ele não podia dispor do valor, mesmo em condições tão favoráveis. Manfredo voltou à galeria e explicou aos proprietários que “Monteiro” na realidade não era um pintor espanhol como eles imaginavam, mas um brasileiro. Rapidamente, eles telefonaram para a nossa embaixada e um de nossos diplomatas o comprou na hora.
O relato do bolsista é algo que pode ocorrer com qualquer viajante brasileiro em diferentes países e com nossos célebres pintores, alguns desconhecidos no exterior. Com Vicente e em Paris foi surpreendente para ele, Manfredo, e seria para qualquer de nós, porque o pernambucano brilhou durante décadas na Cidade Luz.
Não foram somente esses marchands parisienses os únicos a imaginarem Vicente do Rego Monteiro como um pintor europeu, tão grande é a qualidade de sua pintura e tão universal é o seu conteúdo. Os galeristas franceses estavam bem acompanhados no desconhecimento da origem do pintor. O próprio P. M. Bardi, bravo connoisseur e criador do MASP, junto com Assis Chateaubriand, se surpreendeu em 1956 quando viu um quadro dele e o imaginou ser de autoria de pintor conterrâneo de Picasso. Só a partir desta data, ele soube de quem se tratava e passou a se interessar pela sua obra. Interessou-se tanto que chegou a comprar uma exposição inteira, anos depois. O desconhecimento de Bardi vinha sobretudo dos longos períodos de uma espécie de auto-exílio de nosso pernambucano que, patrulhado politicamente no Brasil, refugiou-se em Paris onde morou durante anos, expondo pouco no Brasil.
Todo esse preâmbulo é para deixarem registrados vários fatos biográficos importantes do artista neste ano de 2010. O mais importante é que Vicente morreu há exatos 40 anos, em 6 de junho de 1970, quando se sentiu mal em Recife a caminho do aeroporto. Viajaria ao Rio de Janeiro para expor sua bela pintura no Museu de Arte Moderna. É data de registro saudoso para o país, que o tratou de formas tão diversas, algumas cruéis, ao longo de 71 anos de vida.
Assim como é impossível falar de Gauguin sem mencionar sua sexualidade pedófila no Tahiti, é impossível falar de Vicente do Rego Monteiro sem suas inabaláveis e coerentes convicções políticas. Nosso herói pernambucano era monarquista, numa época na qual a maioria dos intelectuais achava que a salvação do mundo estava no Partido Comunista e seus integrantes eram tão convencidos disso que não perdoavam ninguém a pensar diferente. O tempo provou que nem Vicente e nem os comunistas estavam certos. A esquerda acabou em 1989 com a queda do Muro de Berlim, assim como já havia desaparecido parte dela em 1956 quando Kruschev revelou os crimes de Stalin. A maioria dos intelectuais pertencentes ao Partidão, diante daquelas denúncias, horrorizados, abandonou o Partido. Ser monarquista em plena republica não é tarefa para neófitos ideológicos. Essa atitude requer coragem política e muita convicção pessoal para continuar ocupando posição apoiada por pouquíssimos contemporâneos e, habitualmente, pagava-se preço alto pela ousadia. Com Vicente não foi diferente e o leitor poderá se informar mais lendo as entrelinhas de certos textos sobre arte e artistas brasileiros do século 20, ou mesmo omissões sobre Vicente em ocasiões nas quais a citação dele seria inevitável, e a consequente descoberta da má vontade de dar-lhe merecidos prêmios de pintura, todos controlados então pelo Partidão. Devemos ao mestre pernambucano uma dívida de gratidão que começou a ser resgatada a partir de 1970, ironicamente, no dia em que ele pretendia chegar ao Rio de Janeiro para sua citada exposição. Ele nunca chegou a embarcar e ver na retrospectiva a beleza de suas criações, a sensacional unidade de um artista maduro que havia percorrido trajetória artística tão coerente quanto suas convicção políticas, morrendo em Recife e deixando suas telas no Museu de Arte Moderna na mais completa solidão.
Não foram somente criaturas a ficarem sem seu criador. A solidão humana e a dura vida de operário são expostas e perceptíveis em certas pinturas de conteúdo social de sua autoria, como trabalhadores simples em serviços braçais a lembrar sua infância em Recife, acrescida de certos acontecimentos fundamentais do século 20, seja nas conquistas tecnológicas, seja no esporte. Em ambos há a demonstração de seu humanismo na insistência da profusão de figuras humanas retratadas ao longo da vida. Ele pintava retratos, flores, paisagens, naturezas-mortas usando as técnicas que iam do desenho ao óleo, passando pelo guache e aquarela, todos de um primor ímpar.
Há pessoas que não deveriam morrer, tão grande foi sua contribuição ao nosso mundo. Imagine-se a qualidade da produção de pintores falecidos tão prematuramente como o sempre lembrado Van Gogh ou Modigliani ou ainda Pollack, ou de certos músicos como Mozart. Vicente tinha apenas 71 anos quando faleceu, cedo demais para morrer, sobretudo quando ainda criava peças imortais e cada vez com mais unidade e coerência. Mas neste desejo de que vivam mais, talvez seja necessária a inclusão de algo místico para explicar o desaparecimento de pessoas tão brilhantes: foram literalmente compor em outro mundo, confirmando o presente recebido de Deus. Abençoado por Ele com talento inacreditável para um menino, desde os 11 anos de idade, em 1910, já pintava de forma invejável e era uma realidade artística maior que uma promessa. Três anos depois, ele expunha no Salão dos Independentes, em Paris. O salão incluía artistas da mais alta importância vivendo em Paris e lá estavam franceses e estrangeiros, a maioria personagens marcantes no século 20. Estar entre um deles e com a idade que o nosso universal pernambucano tinha, significava o reconhecimento de talento, criatividade e a certeza de que acreditavam na sua garra e determinação de caminhar entre pinceis, telas, óleos, aquarelas, desenhos e esculturas. Como se sabe, muitos artistas talentosos param cedo por não suportarem as vicissitudes da vida juntos com aquelas artísticas.
Vicente do Rego Monteiro passou a ser um nome brilhante e respeitado em Paris entre seus pares a partir de 1914. Produziu muito na terra de Voltaire e ficou conhecido entre colecionadores, marchands e poetas como “M. Monterrro”. Sua trajetória biográfica deve ser consultada em vários livros já editados, em especial, aquele de Walter Zanini, mas, como se vê, sua louvação começa antes da Semana de Arte Moderna de 1922. Não foi sem motivo a sua inclusão naquela célebre exposição: apesar de morar em Paris, os modernistas sabiam do seu talento prodigioso. Estar entre os modernistas em 1922 significa que o nosso herói tinha a “avançada” idade de 23 anos quando participou do evento mais significativo das artes no Brasil no século 20. E que participação! Vicente expôs oito trabalhos a óleo, com os quais ele já trazia sua marca definitiva do mais original pintor brasileiro. Seus trabalhos eram pinturas, mas parecem esculturas brotando da tela. Seu apelido em Paris era Petit Rodin, como garante sua irmã Débora Monteiro Bastos.
Vários artistas brasileiros descobriram grande parte do nosso acervo intelectual no século 20 a partir de visitas às cidades históricas de Minas Gerais. Vicente do Rego Monteiro aqui esteve em 1920 e é muito possível que, a partir daí, ele tenha descoberto a simetria do barroco mineiro e a tenha transposto aos seus quadros, simetria inexistente antes de 1922, presente naquela exposição e confirmada ao longo de sua vida. É o que mais sobressalta aos olhos do espectador apaixonado. Ele, provavelmente, foi o primeiro pintor nacional a descobrir o barroco mineiro, mas não foi o único. Em 1924, Mário de Andrade, Tarsila, Oswald e outros modernistas visitaram nossas cidades históricas e aqui descobriram e valorizaram um Brasil que lhes era desconhecido. Oscar Niemeyer já declarou “n” vezes que as curvas do conjunto arquitetônico da Pampulha foram retiradas do mesmo barroco que hoje está em Ouro Preto, Diamantina, Tiradentes ou Sabará. Vicente do Rego Monteiro herdou das entranhas do nosso barroco a simetria, aplicada à maioria de suas composições, notadamente aquelas com figuras humanas e animais, e suas obras são tão imortais quanto aquelas de Aleijadinho ou Manoel da Costa Ataíde.
É inútil a esquerda brasileira imaginar que Vicente possa ser ignorado como o mais brilhante pintor de sua geração. Sua obra é originalíssima e esplendorosa demais para não ser descoberta e redescoberta por gerações sucessivas, tornando-se um clássico imortal. Em suas biografias, não é claro por que ele insistia em ser monarquista em pleno início de república. A teoria deste articulista é que ele percebeu o quanto o clero e a nobreza prestigiavam os artistas e é possível que imaginasse quanto estes ficariam prejudicados com a nova ordem política. Isso já havia ocorrido na sua amada França onde artistas importantes morriam na penúria, por que seria diferente no Brasil? Com a separação do Estado e Igreja e a exclusão dos nobres, haveria pouco interesse da república em manter os artistas da mesma forma que aquelas duas instituições tradicionalmente faziam. Se esse foi um dos motivos para ser monarquista, Vicente estava certo. Pouquíssimos políticos na presidência republicana se preocuparam com arte. JK foi uma exceção desde quando foi prefeito de Belo Horizonte e criou o conjunto da Pampulha convidando Portinari, Burle Marx, Ceschiatti, José Pedrosa, além de Oscar Niemeyer, para criarem a arquitetura e o paisagismo que até hoje encantam pela eterna contemporaneidade. A mesma preocupação de JK se estendeu posteriormente na construção de Brasília. Se fosse possível pedir a Vicente uma única explicação pela sua preferência ideológica, é muito possível que seja essa. Se fosse confirmada, nosso herói acrescentaria que não estava preocupado consigo. Ele era de família de comerciantes e tinha condições financeiras para viajar a Paris e ali permanecer por anos, vendendo ou não os seus trabalhos. Sua preocupação política, com certeza, era com a sobrevivência da arte e de seus colegas artistas, imaginando-os incapazes de sobreviverem sem o clero e a nobreza, em época na qual colecionadores eram pouquíssimos e ninguém pensava em arte como investimento financeiro. Essa teórica afirmação, impossível de ser comprovada, pode se refletir na obrigação de nossa eterna penitência, expondo seus trabalhos indefinidamente em museus e abrindo salas especiais em exposições e bienais brasileiras.
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